Título: Varig & Brasil, caminhada em paralelo
Autor: Marco Antônio Rocha
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/06/2006, Economia & Negócios, p. B2

A falência da Varig será, também, mais um sinal do fim de uma era? Ou será, também, mais um sinal de que o Brasil apeou da História? De qualquer forma, não é um fato banal. E, dados os históricos vínculos entre o desenvolvimento dessa empresa e do próprio País, merece consideração e análise. A Varig é hoje um símbolo ambivalente. Até não muito tempo atrás, era a "estrela brasileira no céu azul", "o Papai Noel voando a jato pelos céus" - orgulho de muitos brasileiros, inveja para os concorrentes, cornucópia de cortesias em passagens e upgrades para poucos, os famosos ou os bem situados nos governos, os brasileiros "de primeira classe" -, e levava a nossa bandeira verde-amarela, se não para todos os quatro cantos do mundo, ao menos para os que de fato contam. Nesse mister, foi substituída hoje, com ampla vantagem e com mais propriedade, pela camiseta da seleção de futebol. Mas a outra face, oculta, desse símbolo é o que ele representa como herança de um Brasil que parece estar afundando, com grande desconforto e perplexidade para muita gente, inclusive esquerdistas de carteirinha. O Brasil do compadrio, do jeitinho, dos "amigos do rei", dos apaniguados dos governos, do "deixa-pra-lá", do "toma-lá-dá-cá", do "peraí-que-a-gente-resolve", do "vamu-levando", do "qual-é-o-esquema?", do "com-quem-a-gente-fala-pra-resolver", enfim, de um Brasil-condomínio-fechado da alta burocracia com associados e lacaios do mundo privado - empresários, intelectuais e militares -, vez ou outra desafiado por membros dessas categorias que se sentiam excluídos das amenidades ou tinham dificuldade, digamos, de "cadastro" para tirar o crachá. A Varig nasceu, cresceu e se fortaleceu nesse ambiente de um Brasil ameno para os escolhidos e muito cruel para os excluídos - o Brasil do "para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei!" - e que, curiosamente, o Partido dos Trabalhadores, no poder, se esforça por revigorar. Propriedade antiga de uma fundação - tipo de personalidade jurídica que, no Brasil, serve também para abrigar pessoas que gostam de desfrutar vantagens, comendas, rapapés e mordomias inerentes ao status de grandes empresários, sem se submeter aos encargos do ofício, entre os quais o de pagar impostos -, ela foi abrindo lucrativo caminho num tempo em que o manual básico para o sucesso empresarial neste país não era nenhum livro-texto de business administration, nem mesmo uma das apostilas fajutas nas quais muitos jovens de hoje apostam seu futuro nessas arapucas de MBAs que pululam pelo País. Era, isso sim, o informal "fazer amigos e influenciar pessoas" que nenhum Dale Carnegie seria capaz de sistematizar melhor. Na verdade, são muito poucos os empreendimentos nascidos no Brasil cujo sucesso se assentou no tripé clássico: fundador visionário e dinâmico, trabalho duro, governança competente. Na grande maioria dos casos, entre os quais pode haver um ou outro que também exiba os três atributos citados, houve um quarto elemento, fundamental: um grande amigo no governo (da República, de Estados ou de municípios). Nesse sentido, a Varig nada mais é, ou foi, do que um case exemplar. Formada no tempo das vacas gordas para os espertos e vocacionada para esse tipo de expertise, a empresa pode não ter atinado com a hora de entrar em fase com os novos tempos, nem com as novas maneiras de operar - se é que alguém, na sua alta direção, estava interessado nisso, e não apenas em inflar o ego e os bolsos, uma vez que ela não tinha dono, era de ninguém. Também aí sua trajetória é, de certo modo, análoga à do Brasil, que foi conduzido por mais de metade do século 20 como o fazendão de um coronel escravocrata e só no último terço começou a se dar conta de que tinha caído do berço esplêndido - e de País do Futuro, louvado por Stephan Zweig, se tornou refém de um passado de esbórnia. E não estão ambos, Brasil e Varig, afogados em dívidas monumentais? Será mera coincidência? O drama que estão vivendo os aposentados da Varig (e os que supunham ter garantida sua aposentadoria na empresa) não será precursor do que viverão os aposentados atuais e futuros do INSS? A única diferença, a favor dos últimos, é que o governo imprime dinheiro - a Varig não tem licença para isso. Então, voltando às perguntas iniciais: a falência de uma imensa empresa como a Varig, semipública ou semiprivada, nos indica que está terminando a era do Brasil colonial? Do Brasil do facilitário, do descompromisso, da irresponsabilidade, do contubérnio entre sibaritas nos governos e seu áulicos no setor privado? Está se estreitando o espaço de manobra dos simplesmente espertos e se alargando o dos que têm mérito e competência? Se for isso o que o episódio está nos sinalizando, não devemos lamentá-lo. Ao contrário, temos de saudá-lo e torcer para que emirja logo esse novo tempo de consolidação da meritocracia. Mas há também, no episódio, uma simbologia ominosa. A de que, assim como a Varig, o Brasil não consiga sair do buraco e o velho Brasil, o passado de lástimas, afunde o novo, do qual há sinais promissores. Ou seja, que não consigamos escapar da sina de enjeitados pelos investidores nacionais e internacionais, que estejamos prisioneiros de uma economia de segunda mão, sempre na dependência dos ventos da bonança ou dos trovões da borrasca da economia mundial. E não nos iludamos. Há por toda parte uma expectativa positiva para a economia neste ano. Parece que teremos crescimento maior do que no ano passado. Parece que a turbulência financeira internacional não nos causará dano . Parece que há uma retomada de atividades e investimentos na indústria. Mas isso tudo é aqui e agora, neste ano de 2006. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nos advertiu em recente relatório para o muito que deixamos de aproveitar nos dois anos de bonança internacional que o governo Lula pegou e para os desafios que ainda não conseguimos sequer diminuir significativamente - o mais visível dos quais é a exasperante alta relação da dívida pública com o PIB. Isso no terreno da economia. No da política, está visto que não será um novo mandato de Lula, ou do seu oponente, que nos vai trazer os aperfeiçoamentos necessários - em termos de sistemática eleitoral, de estruturação dos partidos, de responsabilização de mandatários, de vigilância e controle dos poderes constituídos. Pelo que já vimos no Congresso, nos partidos e no atual período pré-eleitoral, é evidente que o Brasil da Casa Grande & Senzala cavalga o atual. E nossas governanças, como as diversas que a Varig teve, não percebem as novas exigências. *Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marocha @estado.com.br

Marco Antonio Rocha*

Marco Antônio Rocha*

A falência da Varig será, também, mais um sinal do fim de uma era?

Ou será, também, mais um sinal de que o Brasil apeou da História?

De qualquer forma, não é um fato banal. E, dados os históricos vínculos entre o desenvolvimento dessa empresa e do próprio País, merece consideração e análise.

A Varig é hoje um símbolo ambivalente. Até não muito tempo atrás, era a ¿estrela brasileira no céu azul¿, ¿o Papai Noel voando a jato pelos céus¿ - orgulho de muitos brasileiros, inveja para os concorrentes, cornucópia de cortesias em passagens e upgrades para poucos, os famosos ou os bem situados nos governos, os brasileiros ¿de primeira classe¿ -, e levava a nossa bandeira verde-amarela, se não para todos os quatro cantos do mundo, ao menos para os que de fato contam. Nesse mister, foi substituída hoje, com ampla vantagem e com mais propriedade, pela camiseta da seleção de futebol.

Mas a outra face, oculta, desse símbolo é o que ele representa como herança de um Brasil que parece estar afundando, com grande desconforto e perplexidade para muita gente, inclusive esquerdistas de carteirinha. O Brasil do compadrio, do jeitinho, dos ¿amigos do rei¿, dos apaniguados dos governos, do ¿deixa-pra-lá¿, do ¿toma-lá-dá-cá¿, do ¿peraí-que-a-gente-resolve¿, do ¿vamu-levando¿, do ¿qual-é-o-esquema?¿, do ¿com-quem-a-gente-fala-pra-resolver¿, enfim, de um Brasil-condomínio-fechado da alta burocracia com associados e lacaios do mundo privado - empresários, intelectuais e militares -, vez ou outra desafiado por membros dessas categorias que se sentiam excluídos das amenidades ou tinham dificuldade, digamos, de ¿cadastro¿ para tirar o crachá.

A Varig nasceu, cresceu e se fortaleceu nesse ambiente de um Brasil ameno para os escolhidos e muito cruel para os excluídos - o Brasil do ¿para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei!¿ - e que, curiosamente, o Partido dos Trabalhadores, no poder, se esforça por revigorar.

Propriedade antiga de uma fundação - tipo de personalidade jurídica que, no Brasil, serve também para abrigar pessoas que gostam de desfrutar vantagens, comendas, rapapés e mordomias inerentes ao status de grandes empresários, sem se submeter aos encargos do ofício, entre os quais o de pagar impostos -, ela foi abrindo lucrativo caminho num tempo em que o manual básico para o sucesso empresarial neste país não era nenhum livro-texto de business administration, nem mesmo uma das apostilas fajutas nas quais muitos jovens de hoje apostam seu futuro nessas arapucas de MBAs que pululam pelo País. Era, isso sim, o informal ¿fazer amigos e influenciar pessoas¿ que nenhum Dale Carnegie seria capaz de sistematizar melhor.

Na verdade, são muito poucos os empreendimentos nascidos no Brasil cujo sucesso se assentou no tripé clássico: fundador visionário e dinâmico, trabalho duro, governança competente. Na grande maioria dos casos, entre os quais pode haver um ou outro que também exiba os três atributos citados, houve um quarto elemento, fundamental: um grande amigo no governo (da República, de Estados ou de municípios). Nesse sentido, a Varig nada mais é, ou foi, do que um case exemplar.

Formada no tempo das vacas gordas para os espertos e vocacionada para esse tipo de expertise, a empresa pode não ter atinado com a hora de entrar em fase com os novos tempos, nem com as novas maneiras de operar - se é que alguém, na sua alta direção, estava interessado nisso, e não apenas em inflar o ego e os bolsos, uma vez que ela não tinha dono, era de ninguém.

Também aí sua trajetória é, de certo modo, análoga à do Brasil, que foi conduzido por mais de metade do século 20 como o fazendão de um coronel escravocrata e só no último terço começou a se dar conta de que tinha caído do berço esplêndido - e de País do Futuro, louvado por Stephan Zweig, se tornou refém de um passado de esbórnia. E não estão ambos, Brasil e Varig, afogados em dívidas monumentais? Será mera coincidência? O drama que estão vivendo os aposentados da Varig (e os que supunham ter garantida sua aposentadoria na empresa) não será precursor do que viverão os aposentados atuais e futuros do INSS? A única diferença, a favor dos últimos, é que o governo imprime dinheiro - a Varig não tem licença para isso.

Então, voltando às perguntas iniciais: a falência de uma imensa empresa como a Varig, semipública ou semiprivada, nos indica que está terminando a era do Brasil colonial? Do Brasil do facilitário, do descompromisso, da irresponsabilidade, do contubérnio entre sibaritas nos governos e seu áulicos no setor privado? Está se estreitando o espaço de manobra dos simplesmente espertos e se alargando o dos que têm mérito e competência? Se for isso o que o episódio está nos sinalizando, não devemos lamentá-lo. Ao contrário, temos de saudá-lo e torcer para que emirja logo esse novo tempo de consolidação da meritocracia.

Mas há também, no episódio, uma simbologia ominosa. A de que, assim como a Varig, o Brasil não consiga sair do buraco e o velho Brasil, o passado de lástimas, afunde o novo, do qual há sinais promissores. Ou seja, que não consigamos escapar da sina de enjeitados pelos investidores nacionais e internacionais, que estejamos prisioneiros de uma economia de segunda mão, sempre na dependência dos ventos da bonança ou dos trovões da borrasca da economia mundial.

E não nos iludamos.

Há por toda parte uma expectativa positiva para a economia neste ano. Parece que teremos crescimento maior do que no ano passado. Parece que a turbulência financeira internacional não nos causará dano . Parece que há uma retomada de atividades e investimentos na indústria. Mas isso tudo é aqui e agora, neste ano de 2006.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nos advertiu em recente relatório para o muito que deixamos de aproveitar nos dois anos de bonança internacional que o governo Lula pegou e para os desafios que ainda não conseguimos sequer diminuir significativamente - o mais visível dos quais é a exasperante alta relação da dívida pública com o PIB. Isso no terreno da economia.

No da política, está visto que não será um novo mandato de Lula, ou do seu oponente, que nos vai trazer os aperfeiçoamentos necessários - em termos de sistemática eleitoral, de estruturação dos partidos, de responsabilização de mandatários, de vigilância e controle dos poderes constituídos. Pelo que já vimos no Congresso, nos partidos e no atual período pré-eleitoral, é evidente que o Brasil da Casa Grande & Senzala cavalga o atual. E nossas governanças, como as diversas que a Varig teve, não percebem as novas exigências.