Título: 'Não desejo ser xerife da América do Sul'
Autor: Roberto Lameirinhas, LIMA
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/06/2006, Internacional, p. A11

Peruano não poupa críticas a Chávez, mas diz que não pretende atuar como barreira contra influência chavista na região

Alan García foi apelidado de Kennedy latino-americano quando foi eleito presidente do Peru em 1985, prometendo reformar um país estagnado e melhorar a situação dos pobres. No entanto, quando ele concluiu seu mandato, em 1990, a economia estava em ruínas, insurgentes maoístas aterrorizavam o país e sua popularidade havia despencado. Agora, García volta à presidência. Ele conversou em Lima com Michael Shifter, do Diálogo Interamericano. A seguir, trechos da conversa:

Sua primeira administração não foi exatamente um grande sucesso. Alguns a consideraram o pior governo da história peruana. Por que um segundo governo García seria diferente?

Não soubemos lidar com uma guerra subversiva, clandestina. Meu governo talvez devesse ter enfatizado uma abordagem mais direta e repressiva no combate à insurgência do Sendero Luminoso. Nosso foco foi mais sociológico. Oferecemos créditos sem juros a camponeses pobres para eles não serem recrutados pelo Sendero Luminoso. Nosso tratamento da pobreza aumentou as pressões inflacionárias. Em retrospecto, teria sido mais inteligente colocar restrições ao capital financeiro e não confiscar os bancos. Esse erro teve conseqüências políticas, pois além do Sendero Luminoso e do comunismo, terminamos enfrentando a classe empresarial.

Alan García evoluiu desde que deixou a presidência, em 1990?

Agora percebo que não existe mágica. A mudança ocorre de maneira incremental... Não só se passou muito tempo, mas as estruturas econômicas mundiais, a tecnologia da informação e as comunicações mudaram. O que antes parecia uma ameaça agora é uma virtude. Não somos contra a propriedade privada, e sim contra o controle monopolista. As empresas precisam competir. O que o meu amigo Evo Morales (o presidente da Bolívia, que nacionalizou o setor de gás natural) faz é simplesmente matar a galinha dos ovos de ouro.

No final dos anos 1980, o escritor Mario Vargas Llosa era seu principal adversário. Nesta campanha, ele conclamou os peruanos a votar no sr. como "mal menor".

Não se trata de ser o mal menor, mas de ser útil. Hoje sou útil para a sociedade peruana, para sua classe média, suas pequenas empresas, seu povo que tem idéias democráticas, que não gosta de Hugo Chávez (o presidente venezuelano) nem de Evo Morales e sente que eu sou útil para fazer as coisas de maneira diferente.

O sr. mencionou Chávez, uma grande questão na campanha.

O fenômeno Chávez é o militarismo com uma porção de dinheiro. Chávez representa um perigo para o Peru. Inicialmente eu achava que Fidel Castro estava por trás dele, mas Fidel já não tem a força que tinha, por isso imagino que agora ele depende de Chávez. Chávez está usando seus milhões de dólares para ampliar sua influência nos países andinos... Há pouco para ser apreciado no presidente Chávez. Ele só é relevante por causa do dinheiro do petróleo. Logo Chávez estará ardendo na Venezuela. Quem estiver muito perto de seu espaço acabará se queimando.

O sr. se vê jogando um papel regional maior, talvez para conter o que vê como uma aventura de Chávez?

Isso é a última coisa que desejaria, ser xerife da América do Sul. Quero realizar coisas no Peru.

As relações entre seu primeiro governo e os EUA não foram muito boas. Elas serão diferentes agora?

Esse tempo passou. É importante fazer as coisas bem no Peru e não lutar contra quem quer que seja.

Fala-se muito sobre populismo e uma virada à esquerda na América Latina hoje. Como o sr. se vê no contexto regional?

Eu me vejo entre o Chile e o Brasil - ambos têm sido bem-sucedidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é realista. E os governos chilenos têm boas equipes técnicas e idealizaram políticas inteligentes, como o crédito para pequenas empresas.