Título: Vadão Gomes escapa já no Conselho de Ética
Autor: Denise Madueño
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/05/2006, Nacional, p. A5

Pedido de cassação do deputado, acusado de receber R$ 3,7 milhões do valerioduto, caiu por 8 votos a 5

O Conselho de Ética da Câmara rejeitou ontem por 8 votos a 5 o pedido de cassação do deputado Vadão Gomes (PP-SP), acusado de ter recebido R$ 3,7 milhões das contas das empresas de Marcos Valério, um dos operadores do mensalão. Foi a primeira votação de processo de cassação pelo colegiado depois da saída de seis conselheiros em protesto contra a série de absolvições pelo plenário.

A nova composição do conselho reverteu a tendência pela aprovação dos pedidos de cassação dos envolvidos no escândalo do mensalão. Só os deputados Ann Pontes (PMDB-PA), Zenaldo Coutinho (PSDB-PA), Affonso Camargo (PSDB-PR) e Cláudio Magrão votaram a favor do relator, Moroni Torgan (PFL-CE), que sustentou o pedido de cassação. Vadão teve o apoio dos partidos envolvidos no mensalão e de pefelistas.

Contra a cassação votaram os deputados Eduardo Valverde (PT-RO), Anselmo (PT-RO), Neyde Aparecida (PT-GO), Jairo Carneiro (PFL-BA), Edmar Moreira (PFL-MG), Feu Rosa (PP-PI), Márcio Reinaldo Moreira (PP-MG) e Josias Quintal (PSB-RJ). O deputado Nelson Trad (PMDB-MS) votou em branco depois de se declarar impedido por já ter advogado em favor de Vadão em 2000.

Depois da absolvição de João Paulo Cunha (PT-SP), no dia 5 de abril, pelo plenário da Câmara, os deputados Júlio Delgado (PSB-MG), Chico Alencar (PSOL-RJ), Fernando Fantazzini (PSOL-SP), Carlos Sampaio (PSDB-SP), Benedito de Lira (PP-AL) e o suplente Cezar Schirmer (PMDB-RS) deixaram o colegiado, o que provocou uma mudança em seu perfil. Exceto Lira, os demais integrantes que renunciaram votavam sistematicamente pela punição dos acusados e reconheciam a existência do mensalão.

O processo será votado pelo plenário da Câmara, que tem absolvido os deputados, mesmo os que tiveram o parecer pela cassação aprovado pelo conselho. Para pedir a cassação de Vadão, Moroni Torgan afirmou que as investigações confirmaram os depoimentos das duas testemunhas. O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e Marcos Valério afirmaram na CPI dos Correios que Vadão recebeu R$ 3,7 milhões do esquema.

DATAS

Moroni apresentou dados da quebra de sigilo telefônico para mostrar que foram feitas ligações telefônicas de Delúbio e de Marcos Valério em datas anteriores aos dias nos quais o empresário afirma terem sido feitos os pagamentos ao deputado. Delúbio, segundo o relator, teria ligado para Vadão nos dias 22 e 24 de junho de 2004 e Marcos Valério nos dias 28 e 29 de junho, por meio do telefone de funcionário de sua empresa. O primeiro pagamento teria ocorrido, segundo a acusação, no dia 5 de julho. Moroni cita ainda que Marcos Valério voltou a ligar para Vadão, no dia 30 de julho, e o restante do dinheiro teria sido entregue no dia 16 de agosto.

O relator sustentou que Delúbio autorizou o pagamento e Marcos Valério cumpriu o que foi determinado, entregando o dinheiro em espécie ao deputado. "As ligações foram na ordem certa e nos dias certos", observou o relator.

Vadão negou ter recebido o dinheiro e alegou que a denúncia contra ele se baseia em depoimento sem provas. Citou ainda o fato de o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, não ter relacionado seu nome na denúncia entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF). Afirmou também que Marcos Valério contou uma história falsa.

"Não posso assumir aquilo que não fiz e injustamente me imputam", argumentou o parlamentar do PP. O deputado apelou para o emocional, afirmando que trabalha desde a infância, que é tímido e se considerou um "desvalido parlamentar". Depois, pediu que o relator retirasse de seu parecer a parte em que cita que suas empresas têm lucro de R$ 75 milhões por mês.

Segundo Vadão, o faturamento - e não o lucro - de suas empresas é que está na faixa de R$ 70 milhões a R$ 75 milhões por mês.