Título: O protesto do campo
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Fonte: O Estado de São Paulo, 04/05/2006, Notas e Informações, p. A3

Mais uma vez um erro de avaliação do governo criou as condições para que as dificuldades de alguns setores da agricultura se convertessem numa crise com repercussões econômicas, sociais e até de ordem pública. Estradas do Centro-Oeste estão bloqueadas por agricultores e caminhoneiros. Os protestos começam a espalhar-se pelo Sul e pelo Sudeste e já se fala na adesão de agricultores da Bahia. Embarques de soja e derivados já estão sendo prejudicados e firmas exportadoras pagam extras pela demora do carregamento de navios.

Os próprios agricultores podem perder com as manifestações, porque atrasam a comercialização da safra e assumem custos de manutenção de estoques. Mas cálculos desse tipo se tornam desimportantes, quando a paciência acaba e os protestos se transformam num grande lance político. Para facilitar essa transformação, parlamentares da bancada ruralista se mobilizam e se preparam para arrancar do governo o máximo de benefícios.

A demora do governo em reconhecer e atacar o problema pode mais uma vez impor ao Tesouro um custo excessivo, muito maior do que seria, se as autoridades agissem na hora certa. Mais recursos para apoio aos agricultores serão liberados até o fim do mês, disse ontem o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.

O pacote de R$ 16,8 bilhões anunciado no dia 6 de abril foi insuficiente para tranqüilizar os agricultores e fazer refluir a onda de protestos. Saiu com atraso - vinha sendo reivindicado pelo ministro Roberto Rodrigues desde fevereiro - e foi calculado para resolver parte dos problemas imediatos.

O pacote incluía a renegociação de dívidas de custeio e de investimento num total de R$ 13 bilhões a R$ 14 bilhões que os produtores não precisariam pagar neste ano. Pelas últimas informações, essa renegociação ainda não deslanchou.

Providências de maior alcance ficaram fora do pacote de 6 de abril. Sairiam, segundo o ministro da Agricultura, em duas ou três semanas, mas ainda não foram apresentadas. Provavelmente só serão anunciadas depois do Agrishow de Ribeirão Preto, de 15 e 20 deste mês. Rodrigues, segundo se informou ontem, deverá passar apenas um dia nessa feira, em vez de lá instalar seu gabinete, como noutros anos.

Desde o lançamento do último pacote, a situação se tornou mais preocupante para os agricultores, porque o dólar continuou a cair no mercado brasileiro. Produtores chegaram a propor a criação de um câmbio especial para o setor, o que seria uma aberração.

Mas o desajuste entre custos e remuneração continua a existir, apesar da eficiência já provada pelos exportadores de soja e de outros produtos agrícolas. "Se não é possível mexer no câmbio, temos de reduzir os custos e essa diferença tem de sair da carga tributária", disse o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, ele próprio um grande produtor e exportador. Maggi está certo pelo menos quanto a um ponto. É preciso mexer nos custos que não dependem dos produtores e que afetam o poder de competição e a rentabilidade. Parte desses custos decorre da péssima conservação das estradas. Isso explica a adesão de caminhoneiros, estranha à primeira vista, aos protestos de agricultores no Centro-Oeste. Outra parcela importante dos custos é vinculada à tributação irracional, que encarece os insumos. A questão é particularmente grave e complexa, porque envolve o governo federal e os estaduais. O custo fiscal de movimentação de produtos entre Estados já motivou a mudança de unidades processadoras de soja para outros países.

Para completar, há a questão da insegurança diante dos problemas do tempo, com seca ou excesso de chuvas. Falta um sistema eficiente de seguro agrícola. É preciso, admitiu há poucos dias o ministro da Agricultura, criar um "fundo de catástrofe" para dar lastro a um sistema razoável de seguro.

Com os produtores novamente mobilizados e com a interferência de parlamentares, o governo está submetido a enorme pressão. Pode ser forçado a ceder muito mais do que o necessário para uma justa solução. Isso ocorreu outras vezes, mas a lição não foi assimilada.