Título: Em 2002, Ciro colou na Seleção, e se deu mal
Autor: Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/06/2006, Nacional, p. A10

O então candidato armou cenário em jogo com o Paraguai, e Brasil perdeu

No dia 21 de agosto de 2002, horas antes de um amistoso contra o Paraguai e 40 dias antes das eleições, o candidato Ciro Gomes, à época no PPS, montou um encontro, no Hotel Marina, em Fortaleza, com o técnico Luiz Felipe Scolari e os jogadores Kaká, Cafu e Roberto Carlos. Ante fotógrafos e câmeras de sua campanha, ele recebeu de Kaká a camisa nº 23 da seleção brasileira. Não era o número que Kaká usava, mas era o número com que Ciro concorria.

A estratégia falhou. Um gol marcado por Cuevas, aos 27 minutos do primeiro tempo, deu a vitória ao Paraguai e jogou água no chope de Ciro, então segundo colocado nas pesquisas eleitorais para a Presidência e ostensivamente apoiado pela CBF. Depois do jogo, propositadamente agendado para Fortaleza, Ciro arcou com a fama de pé-frio. O placar melancólico contribuiu para aumentar a tristeza pela saída de Felipão, que se despedia naquela partida da seleção, após 13 meses de comando.

Logo após o tricampeonato mundial, em julho de 1970, o senador Filinto Müller, então presidente da Arena, partido dos militares, recomendou aos candidatos do partido em todo o País às "eleições" daquele ano que usassem a conquista, em tom ufanista, em suas campanhas eleitorais. A recomendação era uma repetição fiel do uso político deslavado que os regimes fascista italiano e nazista alemão tinham feito das glórias esportivas nos anos 30.

COME-E-DORME

Um dos artifícios que Eurico Miranda, presidente do Vasco da Gama até hoje, usou para se eleger deputado pela primeira vez foi eminentemente futebolístico. Arregimentou um time com jogadores reservas do Vasco e saiu ofertando jogos pelo interior do Rio. Nos jogos, com entrada franca para a torcida, ele se apresentava ao público como patrono do jogo. E distribuía volantes de sua candidatura aos torcedores que, encantados em ver o Vasco de graça, lhe devolveram o obséquio em forma de voto.

Algumas vezes, a junção política-futebol teve boas intenções. O meia Zenon, que com Sócrates, Vladimir, Casagrande e outros deu vida à "democracia corintiana", no início dos anos 80, lembra que o movimento teve ampla participação na campanha das Diretas-Já. "Nós participamos de comícios em favor das diretas e acho que ajudamos o povão a entender o que significavam as eleições diretas", diz ele hoje, com evidente orgulho.

Mas alguns jogadores também se aproveitaram da política. Ao voltar bicampeão da Copa do Mundo no Chile, a Seleção Brasileira foi direto a Brasília, para um almoço, na Granja do Torto, com o então presidente João Goulart. Durante o almoço, surpreendeu os demais jogadores a desenvoltura com que o meia Mengálvio, do Santos, normalmente calado e distraído, se empolgava numa conversa com o presidente. Todos viram quando ele escreveu algo num pedaço de papel e o entregou a Jango.

Na saída, já à vontade na residência presidencial, gritou de longe, erguendo o polegar direito: "Não vai esquecer não, hein, 'presida'!" Pressionado, Mengálvio confessou o pecado: tinha pedido um emprego de professora para a irmã. O jogador acabou punido pela confederação, mas, um mês depois, chegou alegre ao treino do Santos, informando a todos que o "presida" tinha cumprido a promessa: sua irmã já estava dando aulas.