Título: Pimenta pega 19 anos, mas sai livre
Autor: LAURA DINIZ, MARCELO GODOY E JOSÉ MARIA TOMAZELA
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/05/2006, Metrópole, p. C6

Tia de Sandra Gomide chorou na leitura da sentença; revoltados, parentes pintaram nariz de palhaço com batom

O jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, de 69 anos, foi condenado ontem a 19 anos, 2 meses e 12 dias de prisão pelo assassinato da ex-namorada, a também jornalista Sandra Gomide, em agosto de 2000. Mas saiu livre do Fórum de Ibiúna, onde foi condenado pelo Tribunal do Júri por homicídio duplamente qualificado, um crime hediondo. A sentença foi recebida com revolta pelos parentes da vítima, que pintaram o nariz de palhaço com batom.

"Ele tem dinheiro. Se fosse um coitado, sairia preso", disse o pai de Sandra, João Gomide. "É uma palhaçada. De que adianta ser condenado a 100 anos se não vai preso?", questionou Nilton Gomide, irmão de Sandra. "Não sei o que vou contar para minhas filhas. Não entendo como uma pessoa pode ser condenada no papel, mas não ir para a cadeia."

Após ler a sentença, o juiz Diego Ferreira Mendes explicou por que Pimenta não podia ser preso. "Não é a decisão que a pessoa Diego queria tomar, mas a que o juiz precisou tomar para não desrespeitar a lei."

Durante a leitura, Maria Angélica Gomide, tia de Sandra, chorou. Depois, gritou: "Como vou dizer para meus alunos que matar é crime?"

Emocionada, a dona do Haras Setti, Marlei Setti, disse que perdeu a crença no Judiciário. "Se acontecer algo com uma das minhas filhas, não vou procurar a Justiça. Vou resolver com minhas próprias mãos", disse, sob aplausos.

Para justificar o recurso em liberdade, Mendes explicou que a situação processual do réu mudou de primário para condenado. Mas a situação fática - Pimenta não ameaça testemunhas, não dá indícios de que vai fugir e colabora com a Justiça - permanece, por isso, não há motivo para prisão. O juiz citou jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), que prevê que o réu pode responder em liberdade quando cabem recursos da sentença. Em referência à alegação da defesa de que Pimenta passava por crise depressiva, Mendes escreveu que ele tinha dinheiro e inteligência suficientes para procurar ajuda.

Pimenta deixou o fórum por volta das 18 horas, no carro dos advogados, atacado por populares. O Honda do advogado Carlos Frederico Müller, da defesa do jornalista, foi cercado e chutado, mesmo sob escolta policial. Cerca de 150 pessoas começaram coro de "assassino" e "pena de morte". Um rapaz chutou a porta e outro socou o vidro traseiro esquerdo, que se partiu.

O réu e os advogados não falaram com a imprensa. O carro seguiu rumo à zona sul da capital. Ao chegar ao destino, seguido por jornalistas, Pimenta chamou a polícia, alegando que o veículo tinha sido apedrejado.

Na saída do fórum, nem os jurados escondiam a decepção após 3 dias de julgamento. "Fizemos nossa parte, mas foi frustrante. Uma condenação exige a prisão", lamentou a jurada Simone Godinho Rodrigues Elias.

O promotor Carlos Sérgio Rodrigues Horta Filho disse que o objetivo era a condenação e não esperava que ele saísse solto. "Vamos postular a órgãos superiores que seja revogada." Apesar de tudo, o advogado Sergey Cobra Arbex, assistente de acusação, considerou a sentença positiva. "Fez-se justiça. O réu foi condenado a pena altíssima."