Título: Indústria cresce 4,6% no trimestre
Autor: Jacqueline Farid
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/05/2006, Economia & Negócios, p. B13

Em março, houve recuo, mas no período foi o 10ª resultado positivo

A produção industrial recuou 0,3% em março em relação a fevereiro, mas fechou o primeiro trimestre do ano com crescimento de 4,6% ante igual período do ano passado. O sinal negativo em relação ao mês anterior ¿pode ser lido como estabilidade¿ na avaliação de Silvio Sales, chefe da Coordenação de Indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para quem não há nenhum sinal de tendência de queda na atividade do setor.

Ele argumentou que no atual cenário econômico não há perspectiva de pressão inflacionária, haverá efeito positivo do aumento do salário mínimo sobre os bens de consumo e, ainda, não há sinais de aumento da inadimplência. ¿Com esses elementos, não há como imaginar esses -0,3% como início de uma trajetória de queda.¿

Sales destacou também dados positivos, como o aumento de 1,2% na produção no primeiro trimestre deste ano ante o quarto trimestre do ano passado, o crescimento de 5,2% em março ante igual mês do ano passado e a expansão de 3,3% em 12 meses.

Mas para Julio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), os dados da produção industrial de março mostram que ¿na margem nós paramos o crescimento¿ e ¿o primeiro trimestre de 2006 não foi bom para o setor¿.

Para ele, ¿é como se estivéssemos nadando sem sair do lugar¿. Ele admite que os dados industriais ¿não são muito ruins, mas poderíamos estar crescendo muito mais¿. Gomes de Almeida disse que a impressão é que há um ¿medo do crescimento¿ no País, cujos sintomas são os juros e o câmbio.

Para ele, a queda dos juros básicos (taxa Selic) ainda é ¿tímida¿ e o câmbio atual ¿é de defesa da inflação e não da produção¿. O diretor do Iedi alerta que, ¿temos de defender mais a produção a partir de agora, pois o câmbio é uma defesa antiprodução¿. A previsão do Iedi é que a produção industrial cresça entre 3% e 4% em 2006 ante o ano passado.

Os dados divulgados ontem pelo IBGE foram recebidos sem entusiasmo também pelos analistas da consultoria Austin Rating. Em relatório, eles avaliam que os resultados da indústria mostram que a redução dos juros iniciada em setembro do ano passado ¿ainda não surtiu o efeito desejado de estimular a demanda de forma mais vigorosa¿.

O relatório também cita o câmbio como um dos fatores responsáveis para ¿uma situação ainda frágil¿ da indústria, já que alguns setores exportadores estão perdendo competitividade por causa do dólar baixo. O segmento de calçados, por exemplo, teve queda de 4,3% na produção no primeiro trimestre deste ano ante igual período do ano passado, por causa do recuo das vendas externas do setor, simultaneamente ao aumento da concorrência de produtos importados.

A queda na produção em março ante fevereiro atingiu 17 das 23 atividades pesquisadas pelo IBGE na série comparativa a mês anterior. No primeiro trimestre, que apresentou o décimo resultado positivo seguido em relação a igual trimestre do ano anterior, os destaques de alta foram a indústria extrativa (13,2%, com destaque para minério de ferro e petróleo), máquinas para escritório e equipamentos de informática (67,4%, favorecido pelo câmbio) e material eletrônico e de comunicações (21,7%, com o aumento na produção de televisores e celulares).