Título: Qualidade de ensino continua ruim na América Latina
Autor: Renata Cafardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/06/2006, Vida&, p. A26

A América Latina aumentou suficientemente o número de crianças e jovens nas escolas nos últimos anos, mas a qualidade do ensino continua ruim. Esse é o resultado do relatório 2006 do Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe (Preal), Quantidade sem Qualidade. O documento foi divulgado em Salvador, na conferência Ações de Responsabilidade Social em Educação, promovida pela Fundação Lemann.

Os dados mostram que a região se sai mal na comparação de desempenho em avaliações até com países da Europa Oriental, que têm renda semelhante. O sistema educacional latino faz surgir também os piores entre os piores: estudantes de baixa renda. As diferenças entre notas em exames internacionais de alunos ricos e pobres chega a 91 pontos na Argentina e 67 no Brasil. A média dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 34. No Japão, são 6 pontos de diferença.

"Sem eqüidade não é possível haver qualidade", diz o educador e coordenador da Fundação Ford, Jorge Balán. Para ele, os países só vão se desenvolver se escolas ruins também melhorarem. "É preciso investir na formação de professores e em avaliação permanente", completa o secretário geral da Cúpula Ibero Americana, Enrique Iglesias.

O relatório dividiu a educação em áreas essenciais para a qualidade e deu notas gerais para a América Latina. Só o número de matrículas recebeu uma nota B, considerada boa. A região aumentou de 91% para 95%, entre 1995 e 2003, o total de crianças cursando o ensino fundamental, porcentual acima da média mundial. As outras áreas - entre elas, resultado em provas, investimento de recursos e eqüidade - tiveram apenas notas C (satisfatória) e D (ruim).

Para o diretor do Preal, Jeffrey Puryear, o Brasil está numa posição mediana com relação aos vizinhos. "Algumas coisas no País estão mudando, mas ainda há excesso de investimento no ensino superior e pouco no ensino básico", diz. O relatório foi apresentado na conferência pelo ex-ministro Paulo Renato Souza, responsável pela educação brasileira em grande parte do período estudado. Segundo ele, é preciso melhorar a qualidade do ensino, estabelecendo padrões claros de aprendizagem.

Mas, de acordo com o ex-ministro, essa constatação só é possível porque hoje há medidores nacionais e internacionais de desempenho dos alunos, como o exame Pisa, feito pela OCDE, que não existiam há cerca de 15 anos. "Hoje medimos muito bem nossos péssimos resultados, temos muita confiança de que nossa educação é ruim", diz o educador Claudio Moura e Castro.

RECURSOS

O documento do Preal também analisou o investimento em dólares feito pelos países na educação. Os gastos por aluno do ensino fundamental na América Latina são inferiores ao dos membros da OCDE, que é de US$ 4.800 por ano. No Brasil, o valor é de pouco mais de US$ 500. O Chile tem o investimento mais alto da região, com US$ 1.400 por aluno, e a Nicarágua, o mais baixo, com US$ 190.

A disparidade quanto aos investimentos em alunos do ensino fundamental e do superior, como disse o diretor do Preal, também assusta. A região gasta em média três vezes mais com estudantes de universidades do que das escolas públicas. O Brasil tem uma das proporções mais altas: cinco vezes mais. "Não dá para tirar dinheiro de nossas excelentes universidades públicas, mas é preciso ter mais para o ensino básico", diz a secretária de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro.

A conclusão, principalmente do ensino médio, também é um problema da América Latina. A média é de 60% dos jovens terminando a escola na região. A Argentina, o Paraguai e o México têm índices piores do que Malásia ou Tailândia, com PIB per capita semelhante.

A Fundação Lemann também divulgou um estudo sobre a evasão escolar dos latinos. Segundo os cálculos feitos pela entidade, a cada 28 segundos uma criança ou jovem deixa a escola na região. Durante a conferência, que começou na quinta-feira e terminou no sábado, cerca de 5.500 alunos desistiram de estudar.

A repórter viajou a convite da Fundação Lemann