Título: Eles o odeiam, mas eles o criaram
Autor: Denise Dresser
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/06/2006, Internacional, p. A14
Muitos mexicanos consideram o candidato presidencial Andrés Manuel López Obrador um homem perigoso. "Ele é um populista feroz", dizem eles. "Destruirá o país", argumentam. "É um falso messias", insistem. Mas os esforços para retratar o líder de esquerda como a versão mexicana de Hugo Chávez da Venezuela erram o alvo. López Obrador é um sintoma de problemas profundos que o México precisa enfrentar.
Incitar o ódio contra um homem que é percebido como próximo dos espoliados não eliminará as legítimas queixas destes. E este é o verdadeiro perigo para o México: que em seus esforços para repudiar López Obrador, as elites governantes negligenciem as condições que o produziram.
A popularidade de López Obrador é um sintoma dos esforços fracassados do México para se modernizar com uma reforma neoliberal tíbia nos últimos 20 anos. O México percorreu o caminho do livre mercado preconizado pelo Consenso de Washington. Mas não o fez direito, com privatizações malfeitas que transferiram monopólios estatais para mãos privadas e reformas econômicas que beneficiaram um punhado de empresários, mas não um número significativo de consumidores. O resultado: uma economia que não cresce o suficiente, uma elite empresarial que não compete o suficiente, um modelo econômico que concentra riqueza e não redistribui o suficiente, e 50 milhões de mexicanos vivendo com menos de U$ 4 por dia.
Para muitos, a continuidade oferecida por Felipe Calderón do Partido de Ação Nacional (PAN) significaria simplesmente mais do mesmo.
Não espanta que López Obrador receba o apoio que recebe. Ele é um político providencial criado por um sistema econômico disfuncional.
López Obrador existe e pode ganhar a presidência em 2 de julho por tudo que as classes política e empresarial não conseguiram fazer no México: criar oportunidades reais para as pessoas comuns reformando o capitalismo de compadrio mexicano. Eles não fizeram isso, e os privilégios para poucos às custas de muitos explica por que a mensagem de López Obrador repercute. É como se ele segurasse um espelho e confrontasse o país com uma imagem refletindo as desigualdades que muitos se recusam a reconhecer.
E é essa divisão que as elites mexicanas mais deveriam temer. Em vez de odiar o homem, deveriam odiar as condições que o criaram.
Há muitos mexicanos para os quais o status quo não funciona. Há muitas pessoas que buscam a transformação profunda de um país que historicamente as excluiu, ou as obrigou a cruzar a fronteira em busca da mobilidade social que não podem encontrar em casa. O melhor antídoto contra a ascensão de López Obrador teria sido um modelo econômico que promovesse os pobres em vez de ignorar suas aflições.
Nada disso pretende sugerir que López Obrador vá necessariamente assegurar as benesses que tem prometido. Ele pode ter diagnosticado corretamente os males do México, mas não oferece as soluções corretas. Muito do que promete cheira a arcaico e ainda não consegue refletir os desafios que se colocam para a economia globalizada do México.
Ele fala muito em aliviar a pobreza, mas ainda precisa dizer como criará a riqueza. Às vezes, sua retórica tem sido tão provocadora quanto a do esquentado venezuelano ao qual com freqüência o comparam.
Mas terminam aí as semelhanças com Hugo Chávez. Chávez usou as Forças Armadas da Venezuela para realizar seu projeto; López Obrador jamais poderia fazê-lo. Chávez tirou vantagem da desintegração dos partidos políticos de seu país; os do México são profundamente enraizados e bem financiados. Chávez confrontou os Estados Unidos; López Obrador compreende que seria um suicídio o México comprar essa briga.
López Obrador aspira a governar um país com um conjunto muito diferente de limitações. As instituições e a posição geográfica do México o encaminhariam para o pragmatismo que ele tem exibido durante toda sua carreira política.
López Obrador provavelmente não é o esquerdista visionário e moderno de que o México necessita, mas tampouco é um ditador disfarçado. Ele logo aprenderá que não existe um "modelo econômico alternativo" para o país, e será obrigado a combinar mais atenção aos pobres com estabilidade macroeconômica.
Infelizmente, as elites privilegiadas mexicanas estão ocupadas demais incitando o medo para compreender isso. Elas não percebem que o México não pode continuar manquitolando com reformas minimalistas que deixam intactas a estrutura básica de partilha de poder e desigualdade. Elas não percebem que o México é um país rico com uma quantidade imensa de pobres. O verdadeiro perigo para o México não é López Obrador; é a resistência de tantos a compartilhar o país ou governá-lo melhor.
* Denise Dresser, colunista do jornal mexicano 'Reforma' e professora do Instituto Tecnológico Autônomo do México, escreveu este artigo para o 'Los Angeles Times'.