Título: BC chinês tira US$ 19 bi do mercado
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Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2006, Economia & Negócios, p. B6

Depósito compulsório dos bancos sobe 0,5 ponto para 8% numa tentativa de conter o crescimento explosivo

Paulo Vicentini, ESPECIAL PARA O ESTADO, PEQUIM

O Banco Popular da China (PBoC, na sigla em inglês), o banco central chinês, aumentou ontem em 0,5 ponto porcentual a taxa de depósitos compulsórios bancários, elevando-a para 8% a partir do dia 5 de julho.

¿A medida é necessária para conter a forte expansão dos empréstimos bancários e dos investimentos em ativos fixos¿, justificaram as autoridades. Na avaliação do PBoC, o aumento pode ajudar a conter a vertiginosa expansão dos investimentos fixos. ¿A elevação de 0,5 ponto porcentual equivale ao congelamento de US$ 18,7 bilhões¿, diz o órgão, em nota oficial.

A decisão chinesa mexeu com as Bolsas européias, que fecharam em baixa, acumulando a terceira semana consecutiva de perdas. O temor é que a medida freie um dos motores do crescimento mundial. As siderúrgicas e mineradoras, as empresas mais beneficiadas com o crescimento chinês, sofreram as maiores quedas. As ações da BHP Billiton caíram 2,2%, da Steelmaker Corus, 1,4%, da refinaria de metais Johnson Matthey, 2,2%, entre outras.

Os analistas chineses já aguardavam o anúncio. Os números mais recentes sobre o desempenho da economia acenderam a luz amarela nos palácios da Praça da Paz Celestial. O crédito bancário, por exemplo, aumentou 15,97% de janeiro a maio, em relação ao mesmo período de 2005, totalizando US$ 265 bilhões. Após constatar que o volume de empréstimos está muito perto dos US$ 313 bilhões projetados pelo PBoC para 2006, o Conselho de Estado solicitou ontem aos bancos que contenham a liberação de créditos de médio e longo prazos, especialmente a setores superaquecidos, como construção civil.

A economia chinesa manteve, no primeiro trimestre, o alucinante ritmo de expansão das últimas décadas. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa anualizada de 10,3%, arrancando uma inesperada declaração do presidente chinês, Hu Jintao. ¿O crescimento cego não está entre os objetivos de meu governo¿, disse ele.

A fala de Hu, no entanto, não parece ter surtido o esperado efeito. A produção industrial em maio superou as expectativas dos analistas com uma expansão de 17,9% em 12 meses. ¿Estamos indo rápido demais¿, disse Lu Zhongyuan, diretor do Departamento de Pesquisas Macroeconômicas do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento do Conselho de Estado.

Mas há outros indicadores perturbando o sono do Conselho de Estado. De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas, os investimentos em ativos fixos totalizaram US$ 317,5 bilhões de janeiro a maio deste ano, um avanço de 30,3% na comparação com idêntico período de 2005. O Conselho de Estado, no entanto, já deu seu recado ao mercado: ¿Vamos adotar, caso seja necessário, medidas que contenham os créditos e as transações imobiliárias¿.

O fluxo de investimentos estrangeiros também está na mira do governo. Segundo o Ministério do Comércio, a economia absorveu US$ 22,9 bilhões de janeiro a maio deste ano, 2,78% mais que no mesmo período de 2005. ¿Apesar da expansão interanual no período, houve queda de 7% em maio ante idêntico mês do ano passado¿, frisou o China Securities Journal.

O PBoC também reconheceu em sua nota oficial outros desequilíbrios na economia, como os gigantescos superávits no comércio exterior. O saldo positivo de US$ 13 bilhões na balança de maio elevou para US$ 46,8 bilhões o acumulado de janeiro a maio deste ano, ante os US$ 30 bilhões do mesmo período de 2005. Os analistas chineses são unânimes em dizer que o resultado deverá apressar a valorização do yuan, a moeda nacional.