Título: PF marca greve e pressiona governo por salário maior
Autor: Rodrigo Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2006, Nacional, p. A12

Funcionários param quarta-feira por 30% de reajuste

Delegados, agentes e servidores da Polícia Federal prometem fazer paralisação nacional na quarta-feira, dia 21, se o governo não conceder reajuste que vem sendo negociado desde o ano passado. "É uma paralisação de advertência, que pode se estender até o dia 30, que é o último possível para que o presidente Lula não descumpra a legislação eleitoral e não cometa crime de responsabilidade fiscal", disse o delegado federal Armando Rodrigues Coelho Neto, presidente da Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol).

O delegado afirma que a entidade fez paralisação no dia 8 de novembro do ano passado, e o governo pediu uma trégua até a aprovação do Orçamento da União. "O Orçamento foi aprovado (no dia 16 de maio) e a negociação vem se arrastando. Toda semana o governo e os ministérios dizem que sai o reajuste, mas a negociação não está andando", disse.

O pedido dos servidores da Polícia Federal é por um reajuste linear imediato de 30% e mais 30% em 2007, além de melhores condições de trabalho e garantias funcionais.

Segundo o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Francisco Carlos Garisto, hoje o salário bruto inicial de um delegado federal é de R$ 8,9 mil e de um agente é de R$ 4,2 mil.

Garisto lembra que em agosto de 2005 foi apresentada a proposta de reajuste ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. "Ele então consultou o então ministro Antonio Palocci (Fazenda), o ministro Paulo Bernardo (Planejamento), consultou a Casa Civil mais a Presidência da República. Aí nos chamou novamente, em setembro, e nos disse que o governo havia consentido com o reajuste."

Em novembro, continuou Garisto, representantes da Polícia Federal estiveram com Thomaz Bastos, ocasião em que o ministro assinou documento se comprometendo a atender às reivindicações. "Ele disse que o reajuste estava dentro do orçamento, da forma que estávamos pedindo", relata.

Garisto atribui a demora na concretização do reajuste aos técnicos dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento, que estariam irritados com a independência da Polícia Federal e com a queda de Palocci após o escândalo da quebra de sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa. "Indiciamos o chefinho deles e agora estamos sendo discriminados, contra a vontade do presidente e dos ministros. A Polícia Federal está sendo perseguida pelas viúvas do Palocci", acusa.

O presidente da Fenadepol disse ainda que Thomaz Bastos e o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, teriam colocado seus cargos à disposição caso as reivindicações não fossem atendidas.

A assessoria do Ministério da Justiça confirmou a existência do documento assinado por Thomaz Bastos, no qual ele se compromete a conceder o reajuste. Segundo a assessoria, técnicos dos Ministérios da Justiça, da Fazenda e do Planejamento estão reunidos desde terça-feira para definir o percentual do reajuste para os servidores da Polícia Federal, que está sendo discutido entre Thomaz Bastos e Guido Mantega.

No entanto, a assessoria da Justiça nega que o ministro tenha colocado o cargo à disposição. O diretor-geral da Polícia Federal afirmou que não se pronunciaria sobre o assunto.

CONTRAPARTIDA

Para Coelho Neto, da Federação dos Delegados, o uso político da imagem da PF seria outro motivo para o fim das negociações. "Nós fazemos as operações, o governo fatura politicamente e não temos o mínimo retorno", reclama. "Sabemos que fazemos a agenda positiva do governo e, no entanto, não estamos tendo nenhuma contrapartida", lamenta o delegado, que espera solução antes do dia 21.