Título: China tem superávit recorde e supera Japão
Autor: David Barboza
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/07/2006, Economia & Negócios, p. B8
A China informou ontem que fechou junho com um superávit comercial recorde, num dos maiores desequilíbrios mensais já obtidos por qualquer país, o que deve intensificar as tensões com os Estados Unidos e a Europa.
O resultado foi de US$14,5 bilhões, o segundo recorde mensal consecutivo, ofuscando um dos melhores resultados do Japão em décadas. As exportações chinesas cresceram 23%, para US$ 81,3 bilhões, enquanto as importações subiram 18,9%, para US$ 66,8 bilhões.
Os números foram divulgados no dia da posse de Henry M. Paulson Jr., ex-presidente da Goldman Sachs, no cargo de Secretário do Tesouro dos EUA. Como Paulson teve papel crucial na expansão dos negócios da Goldman Sachs na China, espera-se que ele use a sua influência para persuadir o governo chinês a reduzir a diferença comercial entre os dois países.
Para os economistas, esse enorme superávit deverá obrigar as autoridades americanas e européias a aumentar a pressão sobre o governo chinês para que valorize o yuan. Alguns economistas advertem que esse predomínio crescente da China causa enormes desequilíbrios na economia global.
Neste ano, a China superou o Japão, mantendo hoje as maiores reservas em moeda estrangeira do mundo, de US$875 bilhões, podendo chegar a US$ 1 trilhão até o fim do ano. Essa cifra representa quase a metade do Produto Interno Bruto (PIB) da China.
Mesmo que grande parte do superávit global e do crédito estejam nas mãos da China, o fato é que o desequilíbrio global também ajuda a sobrecarregar os Estados Unidos com grande parte da dívida mundial, criando uma relação econômica assimétrica, que pode ser desestabilizadora, particularmente para as taxas de câmbio.
Se esses desequilíbrios se agravarem, afirmam os economistas, o dólar pode despencar ainda mais e a economia global sofrerá um declínio muito forte. "São números significativos", disse Dong Tao, economista do Credit Suisse , especializado na economia dos países asiáticos além do Japão, ao comentar o desequilíbrio comercial mensal registrado pela China.
DESEQUILÍBRIOS
"A expectativa é que a China tenha um superávit comercial este ano de US$ 130 bilhões e um superávit em conta corrente de US$ 200 bilhões, algo jamais visto". A conta corrente, que é uma medida mais ampla do comércio de bens e serviços, inclui mudanças nos pagamentos de juros.
A China tomou algumas iniciativas para reduzir os déficits. Em 2005, permitiu uma modesta valorização da sua moeda e prometeu ganhos gradativos, embora tenham sido muito poucos até agora. Hoje, o yuan é negociado por US$ 7,99, um aumento em relação a uma ancora cambial mantida durante muito tempo antes de 2005, de US$ 8,27.
O governo chinês também está incentivando os consumidores a gastar mais internamente, esperando que a economia doméstica estimule o aumento das importações. De fato, as importações aumentaram no ano passado, mas as exportações mostraram taxas extraordinárias de expansão, mesmo depois de anos de ganhos de dois dígitos.
Em maio, a China divulgou o superávit de US$ 13 bilhões, surpreendendo os analistas, para quem, na China, superávits maiores normalmente são obtidos perto do fim do ano. Em junho, a previsão era de um excedente de US$ 13 bilhões, US$1,5 bilhão menos que os números divulgados esta semana, estabelecendo um recorde na história recente do comércio global, de acordo com as estatísticas da Global Trade Information Services, que tem sede em Colúmbia, Carolina do Sul.
Até agora, neste ano, o superávit da China frente ao resto do mundo subiu para cerca de US$ 61,5 bilhões, um aumento de 55% em relação ao ano anterior e está em ritmo acelerado para superar o excedente recorde de US$ 102 bilhões registrado no ano passado.
"Com certeza, isso deve intensificar a guerra comercial entre Estados Unidos, Europa e China", disse Chen Jianan, professor de economia da Fudan University em Xangai.
CONTROLES
A China tem outros problemas em suas mãos. O governo vem tentando moderadamente reduzir o ritmo de uma economia efervescente que cresceu em torno de 10% no primeiro semestre deste no, de acordo com estatísticas oficiais.
Nos últimos meses, Pequim elevou as taxas de juros, anunciou medidas administrativas para controlar o mercado imobiliário e tentou por um freio nos empréstimos bancários. Tudo para reduzir as pressões inflacionarias e de crescimento econômico.
Contudo, a atividade econômica ainda é frenética - os chineses continuam abrindo fábricas, construindo estradas, fazendo incorporações imobiliárias, lojas e até novas cidades, particularmente antecipando-se a 2008, quando Pequim abrigará as Olimpíadas de Verão, atraindo as atenções para o país. E o dinheiro entra no país a um ritmo sem precedentes. A China tem hoje a quarta maior economia do mundo, tendo ultrapassado a Grã-Bretanha no ano passado.
Para Stephen Green, economista do Standard Chartered Bank, embora esse novo superávit comercial chinês provavelmente aumente as pressões sobre o governo para autorizar uma nova apreciação da sua moeda, não espera qualquer medida drástica nesse sentido.
Dong Tao, do Credit Suisse, disse que uma nova valorização do yuan pode não significar muita coisa porque o problema real esta no fato de os consumidores americanos estarem ávidos para comprar produtos chineses baratos e os Estados Unidos não têm muita coisa em troca para oferecer à China.
"Os Estados Unidos têm pouca coisa para vender para a China, a não ser Boeings e carne, e isso é uma coisa que China e Estados Unidos já reconheceram", disse. Para ele, esse desequilíbrio comercial é muito preocupante para a economia global e "um superávit em conta corrente de US$ 200 bilhões é problemático para o resto do mundo," concluiu.