Título: Roteiro muda na Venezuela para cumprir a lei
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/07/2006, Nacional, p. A8

Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva riscou de sua viagem à Venezuela, na terça-feira, a visita que faria à ponte rodoferroviária sobre o Rio Orinoco e à linha 4 do Metrô de Caracas, uma obra financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Disposto a evitar a saraivada de acusações dos adversários e problemas com a Justiça Eleitoral, Lula permanecerá em Caracas apenas seis horas, para participar da cerimônia de assinatura do protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul.

A idéia do presidente era ficar na Venezuela dois dias, na terça e na quarta-feiras. Para comemorar em grande estilo a parceria com o colega Hugo Chávez, Lula pretendia inaugurar a ponte - que fica na fronteira com o Brasil, a cerca de 20 quilômetros de Ciudad Guayana - por considerá-la um símbolo da integração sul-americana. De quebra, inspecionaria as obras do Metrô, em fase final.

Orientado pela assessoria jurídica do Palácio do Planalto, no entanto, o presidente decidiu restringir sua viagem à cerimônia que marcará a entrada da Venezuela no Mercosul. Motivo: desde ontem os candidatos a cargos do Executivo estão proibidos de participar de inaugurações de obras públicas.

No Planalto, houve uma interrogação jurídica a respeito da norma - se ela se aplicaria ou não a roteiros internacionais -, mas prevaleceu o entendimento de que era melhor evitar riscos. Além disso, as duas obras, a cargo da empresa brasileira Odebrecht, são alvo de constantes ataques da oposição.

O projeto da ponte sobre o Rio Orinoco recebeu um financiamento de US$ 384 milhões do Programa de Financiamento às Exportações (Proex), que é do Banco do Brasil. Já a ampliação do Metrô de Caracas contou com US$ 107 milhões do BNDES, causando revolta ao então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, hoje candidato do PSDB a presidente e principal adversário de Lula.

Alckmin passou boa parte do ano passado repetindo que o BNDES, no governo do PT, engavetou um pedido de empréstimo de US$ 150 milhões para construir uma nova linha do Metrô de São Paulo, enquanto despejava dinheiro em Caracas.

Na época, o então presidente do BNDES, Guido Mantega - atual ministro da Fazenda -, argumentou que o empréstimo para São Paulo comprometeria as metas de superávit. Ressalvou também que a linha 4 do Metrô de Caracas estava sendo construída por uma empresa brasileira, não vendo motivos para tanta polêmica.

Para não ressuscitar o problema e evitar novos ataques do PSDB, Lula achou melhor participar somente da solenidade do Mercosul, já que o Brasil integra o bloco econômico ao lado de Argentina, Uruguai e Paraguai. O Planalto alega que a inauguração da ponte e a visita ao Metrô nunca constaram da agenda oficial do presidente.

Com a entrada da Venezuela no Mercosul, o governo brasileiro espera conter os ímpetos de Chávez. Lula não quer, por exemplo, que o líder venezuelano interfira na eleição do Brasil, nem mesmo para apoiá-lo.

No mês passado, Alan García foi eleito presidente do Peru sob intenso tiroteio de Chávez, que tem provocado constrangimentos até aos aliados. Para o Planalto, Chávez também incentivou o presidente da Bolívia, Evo Morales, a tomar decisão mais dura no episódio da ocupação das refinarias da Petrobrás naquele país, em maio.