Título: 'Precisamos acabar com os privilégios'
Autor: Claudio Aliscioni
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/06/2006, Internacional, p. A28

Sua palavra de ordem é clara: fortalecer o papel do Estado na vida econômica e social do México, o que ele repete sempre que tem oportunidade. Num comício em Ciudad Juárez, o candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD) à presidência, Andrés Manuel López Obrador, salienta que o México precisa restaurar seu "Estado do bem-estar" e, se for eleito, comandará um governo "sem cunhados nem familiares" beneficiando-se do poder público. Mais tarde, ao ser abordado pelo Clarín, o líder de centro-esquerda retoma a mesma idéia. "É preciso acabar com todos os privilégios que existem em meu país", diz. "Existe uma evasão fiscal de 50% e as pessoas influentes não pagam impostos."

De acordo com o líder do PRD, o "apadrinhamento" impera em um sistema que ainda não se libertou dos 70 anos de presença hegemônica do Partido Revolucionário Institucional (PRI), envolvido em inúmeros casos de corrupção. Como resultado, temos uma situação paradoxal em que o México, a décima economia do mundo, sofre com uma péssima distribuição de renda, com cerca de 50% da população composta de pobres e 20% abaixo da linha de pobreza.

Ex-prefeito da Cidade do México, López Obrador está empatado com o conservador Felipe Calderón, do Partido da Ação Nacional (PAN), nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de 2 de julho.

Formado em Ciências Políticas e Administração Pública, López Obrador iniciou a carreira há três décadas no PRI, partido que abandonou em 1988 para unir-se ao PRD, que, na época, era uma nova alternativa à política mexicana. Seu grande salto para o reconhecimento nacional veio em 2000, ao ser eleito prefeito da capital. Não hesitou em reduzir os salários de altos funcionários e cortar privilégios de seus gastos ordinários.

Admirador de "líderes fortes", López Obrador também conquistou o apoio de setores da classe média, realizando grandes obras de infra-estrutura na Cidade do México. Mas seus críticos o acusam de haver endividado a administração municipal e ter tendência a desrespeitar a lei. Ele também foi censurado por um episódio confuso de corrupção em que funcionários de sua administração foram filmados recebendo propinas e apostando fabulosas quantias em um cassino de Las Vegas. Mas nada parecer ter maculado sua imagem.

Com que tipo de privilégios o sr. pretende acabar? Com os privilégios nos altos escalões do governo, privilégios fiscais, porque existem muitas pessoas influentes que não pagam impostos. Temos uma evasão fiscal de 50%. Não vamos aumentar os impostos. Simplesmente não existirão mais privilégios fiscais.

Nesta mudança econômica que o sr. propõe, o Tratado de Livre Comércio com os EUA será renegociado? Sim, claro, algumas cláusulas que nos prejudicam. Por exemplo, foi estabelecida uma cláusula para que, em 2008, as importações americanas de milho e de feijão não sejam mais taxadas. Isso nos prejudica muito. Atingiria 3 milhões de produtores pobres. Precisamos renegociar.

Já que o sr. mencionou os produtores pobres, a crise no campo vem alimentando a emigração para os EUA. Como pretende solucionar esse problema? É preciso colocar a economia para funcionar, gerar empregos. Não há outra escolha. Se não o fizermos, esse fenômeno migratório continuará a crescer no México.

O sr. pretende estimular a incorporação do México ao Mercosul, como era intenção dos últimos governos? Pretendemos manter boas relações com todos os governos e países. Mas vamos empreender uma política externa moderada e não protagonista.

Como essa idéia se traduziria num contexto regional? Agrada-me muito a forma como o presidente argentino, Néstor Kirchner, tem conduzido a política externa.

Por que o agrada? Porque não está promovendo... (buscando a palavra)

O protagonismo? É isso. Apreciei muito isso. A renegociação da dívida foi boa. E foi bom que a Argentina tenha avançado depois de uma crise profunda. O fato de a economia agora estar crescendo, com as coisas melhorando, demonstra que o presidente Kirchner fez um bom trabalho.

Os senhores têm mantido contato? Não. Não o conheço pessoalmente, mas creio que fez um bom governo. Encontrou a Argentina em uma situação muito crítica, tanto no plano econômico como no político e social. E soube administrar muito bem tudo isso.

Do lado argentino há interesse em aumentar o comércio com o México. Existe algum projeto? Com certeza vamos chegar a isso. Teremos uma relação muito boa.

Isso coincide com aqueles que dizem que, se o senhor ganhar a eleição, a América Latina completará sua volta à esquerda? Ou o sr. acredita que já não há esquerda nem direita? Não, não... sim, há esquerdas, claro. Entretanto, cada país tem sua própria peculiaridade. Diferentemente da Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, nós temos 3.000 quilômetros de fronteira com os EUA. Precisamos manter uma relação de respeito mútuo com eles. Neste caso, sim, haverá um governo de esquerda no México porque vamos trabalhar em benefício da maioria, mas ao mesmo tempo, vamos realizar uma política prudente com os Estados Unidos porque, além dessa fronteira, temos 20 milhões de mexicanos nos EUA e um relacionamento econômico e comercial que devemos manter. Assim, estas são as peculiaridades de cada país e é isto que diferencia os governos. Não se pode falar de uma única esquerda.