Título: Pano de fundo é briga pelo controle da Brasil Telecom
Autor: João Domingos e Luciana Nunes Leal
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/05/2006, Nacional, p. A6

O documento apresentado pelo senador Arthur Virgílio (PSDB) durante a audiência de Silvio Pereira é parte do volumoso processo que tramita na Corte de Nova York, no qual brigam, de um lado, o Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, e, de outro, o americano Citibank e os fundos de pensão de estatais Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobrás) e Funcef (Caixa Econômica Federal). No centro da disputa, a gestão da Brasil Telecom, a terceira maior operadora de telefonia fixa do País.

Oficialmente, a direção do grupo Opportunity informa que "não se pronuncia sobre o assunto". Nos bastidores, porém, sabe-se que a versão de que Daniel Dantas teria sido procurado por um integrante da cúpula do PT, durante a campanha presidencial de 2002, é confirmada por ele em conversas com amigos. Mas o valor da "doação compulsória" varia de acordo com cada versão.

Os advogados do Opportunity passaram à Corte de Nova York a informação numa tentativa de sensibilizar o juiz Lewis Kaplan para que ele autorizasse o retorno do grupo ao controle da Brasil Telecom ou a venda de participação acionária, que Dantas buscou passar à Telecom Itália numa transação de 460 milhões de euros. O juiz, que no ano passado deu ganho de causa ao Citibank e afastou o Opportunity da gestão dos negócios, acusando explicitamente Dantas de má-fé, vem negando sucessivos recursos do grupo ,que, no Brasil, conseguiu liminar que o levaria de volta ao controle da operadora de telefonia, não fosse o obstáculo norte-americano.

Dantas está convencido de que é alvo de vingança do PT. A briga do banco com os fundos de pensão, no entanto, começou três anos antes da eleição de Lula e ganhou o noticiário no primeiro semestre de 2000, quando a briga entre os sócios já acumulava mais de 50 ações na Justiça. A disputa ruidosa envolveu espionagem empresarial, denúncias de corrupção, suborno e traição.

Mas o Opportunity - que participou do processo de privatização das empresas de telefonia só como gestor de recursos e participação estimada em 1% na Brasil Telecom - conseguia se manter no controle do fundo CVC, responsável pela administração das empresas, por força de acordo de acionistas firmado na época da privatização e, principalmente, por continuar tendo como aliado o Citibank.

Apenas quando o grupo americano passou para o lado dos fundos, há cerca de um ano e meio, num acordo financeiro absolutamente desvantajoso para os fundos, o grupo de Dantas foi afastado. Se não conseguirem um bom investidor para a Brasil Telecom até 2007, os fundos comprarão a participação do Citibank por R$ 1,3 bilhão, mais correção, a despeito de restrições legais.

Fontes ligadas ao Opportunity acusavam os fundos de agirem de acordo com o que determinava o então secretário de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken. O ministro foi afastado no meio do escândalo que abalou o governo, quando se revelou que uma empresa da qual era sócio, especializada em previdência, ganhara diversos contratos de serviços para os fundos de pensão.

Das seis empresas originalmente controladas pelo CVC Opportunity, Daniel Dantas conseguiu tornar-se controlador apenas da empresa Santos Brasil, o maior terminal de contêineres do País, que opera no Porto de Santos. Ele continua dividindo com a Andrade Gutierrez o controle da Sanepar, companhia de saneamento do Paraná, mas o gestor da empresa é um contratado dos fundos de pensão. No mais, Dantas perdeu, em efeito-dominó, a participação na Telemig, na Amazônia Celular e no Metrô do Rio.