Título: PF já tem disquete com prefeituras do esquema de desvio
Autor: Vannildo Mendes e Sônia Filgueiras
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/05/2006, Nacional, p. A10
Além de declarar à Polícia Federal que 170 parlamentares estão envolvidos no esquema de venda de ambulâncias superfaturadas, desbaratado durante a Operação Sanguessuga, a ex-assessora do Ministério da Saúde Maria da Penha Lino também entregou à Polícia Federal um disquete contendo a lista com todas as prefeituras que compraram ambulâncias com dinheiro de emendas operadas pelos donos da Planam.
A listagem traz a especificação da ambulância, o valor da compra, a prefeitura e a emenda que a financiou. O cruzamento dos dados do disquete com a relação das emendas apresentadas ajudará a PF a qualificar o envolvimento dos parlamentares citados por Maria da Penha. A ex-assessora também afirmou possuir uma cópia de todas as operações que a Planam mantinha em seus computadores na data em que ela deixou a empresa, em março de 2005.
Durante seu depoimento, a ex-assessora, que tenta obter o benefício da delação premiada, conseguiu identificar 83 dos 170 parlamentares que ela afirma integrarem o esquema de subscrição de emendas para ambulâncias em troca de propina. Maria da Penha assegurou que, com a listagem de emendas, ambulâncias e projetos apresentados será capaz de se recordar dos demais nomes. Ela contou detalhes da forma de operação de alguns parlamentares, em especial os de Mato Grosso, onde morava antes de se mudar para Brasília. Entre eles, Pedro Henry (PP).
MOVIMENTAÇÃO
Em novembro do ano passado, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) encaminhou ao Ministério Público Federal relatório comunicando movimentações suspeitas feitas pelas empresas de Darci Vedoin, que chefiava o esquema. As operações, relatadas por dois grandes bancos, somavam mais de R$ 20 milhões.
O Ministério da Justiça já tem a informação preliminar de que, nos últimos meses, foram informados só dois saques em espécie acima de R$ 100 mil feitos pelo esquema de Vedoin no Banco Itaú. Maria da Penha apontou a agência do Setor Comercial Sul do banco, no centro de Brasília, como a mais usada pelos empresários para os saques de dinheiro destinados ao pagamento de propinas. Mas podem existir saques inferiores a R$ 100 mil, limite imposto pela lei de combate à lavagem de dinheiro. O Coaf deve saber de qualquer retirada em dinheiro vivo superior a isso.
O dinheiro para pagar os sanguessugas era sacado na agência do Itaú e levado em espécie aos gabinetes dos parlamentares pelos donos, empregados ou emissários de confiança da empresa, usados como mulas. O motorista Fernando Freire, que mora no Distrito Federal, era uma das principais mulas, segundo Maria da Penha. Às vezes o pagamento era feito mediante depósito bancário. O deputado Reginaldo Germano (PP-BA) seria um dos que receberam o dinheiro em conta corrente, conforme revelaram escutas da PF.
Ontem, o superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso e o delegado Tardelli Boaventura, responsável pela Operação Sanguessuga, divulgaram nota oficial em reação às críticas do presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), para quem a PF misturou nomes de parlamentares sem participação no esquema com outros, seriamente envolvidos. "É com surpresa que observamos determinadas pessoas, algumas inclusive conhecedoras da lei, tentando macular o trabalho da Polícia Federal, ao atribuir à instituição a responsabilidade por eventual mistura de 'joio com trigo', no que tange aos parlamentares mencionados no curso da operação", diz a nota, sem citar nomes.