Título: EUA e Brasil: acordo para Doha
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/06/2006, Economia & Negócios, p. B14
Estados Unidos e Brasil concordaram ontem em manter uma estreita coordenação na etapa crucial das negociações da chamada Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), que se estenderá até 30 de julho. Confirmada anteontem pelo Senado americano para ocupar o posto de representante dos Estados Unidos para o Comércio (USTR), a embaixadora Susan Schwab acertou a aliança durante uma conversa por telefone com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, na manhã de ontem.
Amorim foi a primeira autoridade estrangeira com quem Schwab entrou em contato - uma expressão da liderança do Brasil no G-20, o grupo de economias em desenvolvimento que insiste na liberalização do comércio agrícola e na eliminação de subsídios, os temas fundamentais da Rodada.
Segundo a assessoria de imprensa do Itamaraty, Schwab e Amorim acertaram um encontro bilateral antes do dia 29. Nessa data, a OMC reunirá os ministros de cerca de 40 países com o objetivo de fechar os acordos sobre dois dos três pilares da Rodada Doha - os capítulos agrícola e industrial.
Também trataram da possibilidade de os temas pendentes nessa reunião virem a ser incluídos na agenda do encontro do G-8 (as maiores economias do mundo, mais a Rússia), entre 15 e 17 de julho, em São Petersburgo. Brasil, China, México e África do Sul, entre outros, foram convidados para o encontro. O Itamaraty espera que, no mínimo, as pendências sejam discutidas em reunião à margem do G-8.
Schwab não bateu o martelo sobre essa possibilidade, ao falar com Amorim. Desde novembro passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva insiste na organização de um encontro de líderes dos países mais influentes na OMC, como forma de extrair decisões políticas sobre os temas de impasse nas negociações técnicas, mesmo nas conduzidas em nível ministerial.
Lula deverá conversar mais uma vez sobre essa alternativa com o presidente americano, George W. Bush, nos próximos dias. Mas já tratou desse mesmo assunto com os presidentes Jacques Chirac, da França, e José Manuel Durão Barroso, da Comissão Européia, e com os primeiros-ministros Tony Blair, da Grã-Bretanha, Angela Merkel, da Alemanha, e José Luís Rodríguez Zapatero, da Espanha.
Schwab adiantou para Amorim que o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, visitará Washington na próxima semana. O chanceler brasileiro conversou sobre o assunto nesta semana com Lamy, que não vê com bons olhos a reunião de líderes proposta por Lula. Há expectativas no Itamaraty de demovê-lo, uma vez que é real a chance de não haver nenhum acerto substancial sobre as modalidades para agricultura, indústria e serviços até 30 de julho.