Título: 'Leopardos' caçam 'cozinhas de droga' na selva
Autor: Leonardo Torres
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/06/2006, Internacional, p. A22

Entre a zona das Yungas de La Paz - área tradicional de cultivo legal de coca - e o Chapare, pode haver cerca de 13 mil hectares de cultivo ilegal. Em março, o Departamento de Estado dos Estados Unidos estimou e comunicou em tom alarmante que em 2005 o cultivo da folha cresceu 8%.

De acordo com uma medição por satélite das Nações Unidas, haveria cerca de 7 mil hectares dos chamados ¿cultivos excedentes¿ na selva do Chapare e eles incluiriam territórios de parques nacionais. Dessas plantações clandestinas sairia o grosso da folha que depois é processada em cocaína.

Segundo o tenente-coronel René Salazar, detectam-se por dia, no Chapare, sete ou oito ¿cozinhas de droga¿ no meio da selva. Os Leopardos, nome de fantasia do corpo antidrogas que Salazar comanda, entram pelo rio e por terra. No quartel, situado em Chimoré, a cerca de 30 quilômetros de Villa Tunari, há uma pista de aviação (presente do Tio Sam) onde pode pousar até um ônibus espacial.

Em maio, quando o presidente boliviano, Evo Morales, num ato carregado de simbolismo, voltou ao Chapare, ele agradeceu com ironia aos Estados Unidos por terem construído essa pista de aviação. ¿Antes ela era usada para reprimir os camponeses e agora serve para que aterrissem companheiros cubanos e venezuelanos¿, disse Evo Morales.

A seu lado estavam o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o vice-presidente de Cuba, Carlos Lage.

Agora, quatro helicópteros descansam na pista. No total são dez, usados para sobrevoar a selva. Os soldados dizem que se vê pouco do ar porque a mata encobre tudo.

Na entrada do quartel, um letreiro um tanto lavado pela chuva e pelo tempo convoca a comunidade a denunciar os narcotraficantes. São oferecidas garantias de proteção e alguma recompensa também. Dentro, tudo está mais ou menos à vista, exceto uma área circundada por um paredão com arame farpado em cima. É o bunker da DEA, a agência antidrogas americana. Muitos cocaleiros ficaram presos em Chimoré, entre eles o próprio Evo Morales.

Agora, o presidente boliviano busca o equilíbrio sob o lema Narcotráfico Zero, em vez do Coca Zero made in USA. O governo boliviano sustenta que o melhor meio de controlar o narcotráfico é demarcar as plantações e deixar que os próprios produtores se ocupem do controle. Para isso, foi iniciado um estudo oficial sobre a demanda legal da folha. Se crescer a industrialização da folha de coca, se forem abertas as exportações (a Índia encomendou chá de coca recentemente), então os cocaleiros pedirão autorização para explorar dois catos (um cato = 40m x 40m). Eles defendem também convênios que lhes permitam levar um pacote de coca para seus lugares de origem, com o objetivo de trocarpor outros produtos.

Ultimamente, o presidente Evo Morales enfrentou um conflito quando resolveu autorizar o funcionamento de um terceiro mercado, situado em Caranavi, a 160 quilômetros de La Paz. Nesta cidade há cerca de 3 mil produtores e o desagrado com a possível abertura de um novo mercado se fez notar nas Yungas: obiviamente, ninguém quer que suas vendas diminuam.