Título: Potências fecham acordo sobre Irã
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Fonte: O Estado de São Paulo, 02/06/2006, Internacional, p. A14

Seis potências mundiais concordaram ontem, numa reunião de chanceleres em Viena, em propor um pacote de benefícios ao Irã em troca da suspensão de atividades nucleares vistas com suspeita pelo Conselho de Segurança da ONU. Há o temor de que o país planeje construir bombas atômicas.

Os detalhes da proposta - endossada por Rússia, Estados Unidos, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha - só serão divulgados oficialmente após sua apresentação ao governo iraniano. Mas há indicações de que a oferta inclui ajuda ao programa nuclear iraniano para uso civil, como garantia de suprimento de combustível para reatores nucleares - o que marca uma significativa mudança na longa insistência do governo americano de que o Irã não teria necessidade de energia nuclear. O pacote incluiria ainda outros incentivos ao Irã, como vantagens comerciais e garantias de segurança (de que o país não será atacado). Não ficou claro se a proposta ficará atrelada a medidas punitivas se o Irã rejeitá-la.

Ficou decidido também que se o Irã interromper o enriquecimento de urânio o Conselho de Segurança suspenderá suas ações de pressão sobre o país. Os Estados Unidos, com apoio dos europeus, discutiram no Conselho uma resolução que embutia ameaças de sanções e até mesmo a possibilidade de intervenção militar, caso o Irã não ceda.

As iniciativas de Viena são acompanhadas de importante reviravolta na política americana para o Irã: na quarta-feira, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, anunciou que os Estados Unidos estão dispostos a participar de diálogo direto, multipartidário, com o Irã, desde que suspenda o enriquecimento de urânio. Os dois países romperam relações diplomáticas em 1979, após a Revolução Islâmica.

Ontem o ministro de Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, informou que Rússia e China também estudam a possibilidade de tomar parte nesse diálogo. O Irã recebeu bem a proposta dos EUA de diálogo, mas deixou claro que só participará de conversações se não houver precondições (ler abaixo).

O país alega que seu programa nuclear tem como único objetivo a produção de energia elétrica. Há fortes suspeitas sobre um plano armamentista porque o país manteve secretas por 18 anos instalações nucleares que deveriam ser submetidas à inspeção internacional. O ponto principal de discórdia é o enriquecimento de urânio, pois esse processo tanto serve à produção de combustível para usinas nucleares como a programas armamentistas (se for purificado em níveis elevados).

"Pedimos ao Irã que siga o caminho positivo e estude seriamente nossas propostas substantivas, que trariam bastantes benefícios", afirmou a chanceler britânica, Margaret Beckett, à imprensa, ao lado de seus colegas das outras cinco potências. "As propostas oferecem ao Irã a chance de alcançar um acordo, baseado em cooperação", ressaltou Margaret. "Concordamos em que, se o Irã decidir não tomar parte nas negociações, novas medidas terão de ser tomadas pelo Conselho de Segurança."