Título: 'O Líbano acabou', diz brasileira ao voltar
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Fonte: O Estado de São Paulo, 26/07/2006, Internacional, p. A11

Uma ilha cercada por bombas. Dessa forma a brasileira Valdelice Nunes Leguth descreveu Beirute, a capital do Líbano, ao desembarcar ontem no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. "O sufoco foi muito grande. As bombas explodiam na nossa frente, acabando com tudo. Estávamos em uma ilha que ao invés de água, era cercada por bombas. O Líbano acabou."

Valdelice estava entre os 69 brasileiros e 8 libaneses com cidadania dos dois países resgatados em Adana, na Turquia, por um avião da Força Aérea Brasileira. Depois de 13 horas de vôo, era claro o alívio em seu rosto. Ela morava no Líbano havia sete anos e deixou para trás a filha, os netos e o genro, que ficaram na Síria. Sua fuga não foi fácil. "Meu passaporte estava vencido e quase não me deixaram passar. Quando consegui, alguém disse que estavam caindo bombas e os carros foram uns por cima dos outros. Essas bombas não vão sair da minha cabeça nunca mais."

Na área de desembarque, a emoção dos parentes que esperavam o vôo era grande. A libanesa Kaothar Maouallem, há 30 anos no Brasil, aguardava a filha grávida de 7 meses e a neta. A filha foi para o Líbano há 4 anos e se casou com um libanês. "É um massacre que não poupa adultos, crianças e recém-nascidos. Na guerra de 1967, eu estava lá. E na de 1975, resolvi vir para cá. O Líbano agüentou 20 anos de guerras. Esta última destruiu o país."

Entre os passageiros, estava o adolescente Tarik Rahal, de 15 anos, que viu de perto o horror. De férias no Brasil, ele foi visitar os avós que moram no Vale do Bekaa. "Saí de lá porque estava horrível, um clima de guerra mesmo. A TV de lá não tem censura, mostra tudo que acontece. É muito chocante." A travessia de Tarik também não foi fácil. "Foi complicado passar pela fronteira da Síria, tive que subornar um dos guardas. Mas uma família de brasileiros me ajudou muito."

Com os olhos cheios de lágrimas e a maquiagem borrada, Carolina Rahal, a mãe de Tarik, segurava forte as mãos do embaixador Jadiel Ferreira de Oliveira para agradecê-lo. "Muito obrigada pelo meu filho estar aqui", disse ela ao embaixador.

Nem Ferreira ficou imune à emoção das famílias. Ele morou na Síria por quataro anos e ia ao Líbano toda semana. "Conheço o Vale do Bekaa como a palma da mão. Sei o que é o desespero dessas famílias. A vontade que dá é de abraçar todo mundo", disse o embaixador.