Título: Katiushas caem, mas Sarfaty, o carteiro, não pára
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28/07/2006, Internacional, p. A11
As janelas da única agência dos correios da cidade de Rosh Pina, a 10 quilômetros da fronteira com o Líbano, tremem a todo momento. "Nada a temer", garante o carteiro Morris Sarfaty, de 55 anos, 30 de profissão. "Esse barulho é dos nossos", explica, referindo-se aos canhões israelenses que bombardeiam o país vizinho. Volta e meia, porém, um estrondo diferente é ouvido. "Esse foi um Katiusha (foguete do Hezbollah)", conta Sarfaty, sem mudar de tom. "Já estamos acostumados."
Rosh Pina, de 20 mil habitantes, está vazia, apesar das férias de verão. Na ruas que deveriam estar repletas de turistas poucos moradores caminham. Desde que o Hezbollah começou a lançar foguetes, muitos fugiram. Outros se refugiam em abrigos antiaéreos. Ontem, foram mais de dez foguetes só em Rosh Pina. Apesar disso, Sarfaty continua a ronda diária em 20 vilarejos da região numa das 53 vans que servem de agência móvel dos correios pelo país.
Quando a van chega, uma fila se forma. No vilarejo árabe de Tube, esperam o cheque mensal da aposentadoria. "Como posso me recusar a fazer a ronda? Não posso deixar todos na mão. Já vi dois foguetes caindo na minha frente. Mas tenho de continuar", diz Sarfaty, que custa a admitir que, às vezes, sente medo dos foguetes. "Minha mulher é que fica mais abalada. Ela me liga de hora em hora, só para saber se ainda estou vivo."
A chegada do carteiro a Tube é a única coisa que faz a aposentada Hobudra Hassan, de 50 anos, sair às ruas. O perigo a leva a manter os quatro filhos em casa 24 horas por dia. "Se eu tivesse dinheiro, já tinha ido embora daqui há muito tempo."
De Tube, a van de Sarfaty segue para o kibutz Kfar Hanassi. Lá, ninguém admite temer os Katiushas. "Outro dia saiu no jornal que estamos morrendo de medo e até passamos fome no abrigo antiaéreo. É mentira! Decidimos que ninguém mais dá entrevistas", conta, indignada, uma moradora. Mas num arroubo de rebeldia outra desabafa: "Estamos sim apreensivos. Não é uma situação agradável."
Sarfaty não se intromete. Afinal, ele está lá para entregar cartas. Mas depois, antes de retomar a ronda, ele veste a camisa de analista. "Agora que começamos, Israel tem de ir até o fim para destruir o Hezbollah. Só quem mora perto da fronteira sabe como é viver sob ameaça de um bando de terroristas."