Título: Impaciência e drama antes da volta ao País
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Fonte: O Estado de São Paulo, 27/07/2006, Internacional, p. A12

Praticamente todos os brasileiros que deixam o Líbano estão impacientes para chegar ao Brasil e deixar para trás a guerra. Mas um grupo está tendo de fazer o caminho inverso e retornar a Beirute. Trata-se da família Alwan, que já estava para embarcar no avião da Força Aérea Brasileira (FAB) ontem quando recebeu um apelo desesperado de seus pais que vivem no Vale do Bekaa para que não abandonasse o restante dos parentes.

Nasser Alwan, de 47 anos, sua mulher e os cinco filhos conseguiram chegar até Adana, na Turquia - onde o governo brasileiro montou seu centro de atendimento -, depois de dias de um périplo do qual poucos se esquecerão. No entanto, diante do pedido dos pais, Nasser decidiu retornar ao Líbano e passar os momentos difíceis da guerra com a família.

"Se formos ao Brasil, todos teremos de ir. A família não pode se separar", disse Nasser, que em São Vicente (SP) é dono de um açougue. O caso comoveu até o chanceler Celso Amorim, que, ao saber da história, foi pedir aos Alwans que não voltasse ao Líbano. "Não façam isso", disse o chanceler à família.

Se o dilema dos Alwans deixou até o governo do Brasil preocupado, as demais histórias dos brasileiros também são dramáticas.

Mulaya, de 32 anos e com cinco filhos, conta que resolveu pagar US$ 300 por um táxi para um trajeto que custaria US$ 10 para tirá-los do sul do Líbano. A família permaneceu dois dias no porão de sua casa. "A opção era morrer ou se arriscar. Optei pela segunda", conta a muçulmana. Ela admitiu que leu tanto a Bíblia como o Alcorão enquanto estava escondida. Seu marido, porém, ficou em Beirute.

Aman, uma estudante universitária, conta que deixou o noivo em Beirute, apesar de estarem para casar. "Ele me prometeu que vem ao Brasil assim que puder e nos casaremos. Depois, voltaremos ao Líbano quando a situação melhorar. A guerra é muito cruel", disse.

Para algumas famílias, a retirada também significou a perda de tudo que haviam construído. "O sonho de muita gente foi destruído em poucos dias de guerra", afirmou Yehia Omeri. Ele tinha ido ao Líbano comprar um apartamento, mas o prédio foi destruído por uma bomba. "Eu queria ficar e tentar reconstruir algo quando a guerra terminar, mas vendo crianças chorando, não há como ficar", disse.

Nos hotéis onde os brasileiros se hospedam em Adana, crianças ainda sob o choque da guerra e da fuga se alternam entre a tentativa de voltar a brincar e choros. "Quando tudo estiver mais calmo, explicaremos a situação às crianças. Agora nem elas vão entender nem nós conseguiremos explicar sem chorar", afirmou o gaúcho Amir Taha, que saiu do Líbano com seus quatro filhos.

O passatempo para os brasileiros em Adana tem sido a internet nos bares da cidade, além dos longos telefonemas para os parentes no Brasil.