Título: 'Vamos manter armas e lutar até o fim'
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/07/2006, Internacional, p. A12
Doutor em física e química pela Universidade de Orleans, na França, Hussein al-Hajj Hassan é um dos 14 representantes do Hezbollah no Parlamento libanês. Eleito pela primeira vez em 1996 pela região do Vale do Bekaa, Hassan não saiu mais da política. No fim da manhã de ontem, era um dos poucos deputados presentes no prédio do Parlamento, localizado na Solidere, a região reconstruída na área central de Beirute. Esta é a íntegra da entrevista ao Estado:
Quem apóia politicamente o Hezbollah dentro do Líbano?
O Hezbollah tem um grande bloco parlamentar. Elegemos 14 parlamentares e temos 2 ministros. Formamos uma aliança com o Amal (um grande partido xiita). Juntos, temos 90% dos votos xiitas, 35 deputados e 5 ministros. Temos alianças com vários outros grupos, como o de Aun (Michel Aun, líder cristão) e outros mais. Contamos com o apoio de Irã, Síria, do Hamas e muitos outros países e partidos.
O sr. está tendo o apoio que esperava dos outros grupos que fazem parte do Ministério?
Esses outros grupos têm algumas críticas a algumas de nossas políticas. Mas, em função desta crise, existe uma espécie de união nacional para defender o Líbano contra a agressão. É assim em outras partes do mundo.
Que tipo de críticas o sr. tem ouvido?
Eles falam da operação de captura dos dois soldados israelenses. Aceitamos que eles têm o direito de criticar essa operação. Mas depois da agressão israelense, da destruição do país, todos buscam a união nacional.
Antes do início da guerra, havia muitos grupos libaneses pedindo o desarmamento do Hezbollah...
Tínhamos iniciado um diálogo nacional para debater a estratégia de defesa do Líbano.
O sr. acha que uma organização deve ter o poder de decidir quando um país entra numa guerra? Essa organização não deveria consultar o governo sobre se deveria iniciar um ataque a outro país? Ainda mais quando faz parte do mesmo gabinete?
Ouvi essa pergunta muitas vezes. Está certo um país ocupar o território de uma outra nação? Algum país tem o direito de manter vários prisioneiros libaneses? Está certo um país não entregar o mapa de onde estão as minas no sul do Líbano? Foi certo um país seqüestrar e matar um libanês no mês passado? Por último: você acha que o Exército libanês tem condições de defender o Líbano sem poder ter armas? Essas são as questões.
O sr. pode argumentar que, do seu ponto de vista, existem muitas razões para atacar Israel...
Nunca atacamos Israel. Sempre nos defendemos.
O sr. acha que desta vez foi esse o caso? Israel não atacou o Hezbollah.
Não? E quando seqüestraram um dos nossos? Quando mataram um membro do Hezbollah há pouco tempo? Nós não atacamos Israel. Por que Israel mantém nossos prisioneiros?
Como eu dizia, o sr. pode ter, do seu ponto de vista, razões para atacar Israel...
Nós não atacamos Israel, nós nos defendemos.
Certo. Então o sr. pode ter boas razões para se defender de Israel, mas o Hezbollah, ainda assim, não deveria ter consultado o governo?
Se tivéssemos falado, o governo seria responsabilizado, e Israel destruiria o Líbano.
Mas Israel não está destruindo o Líbano?
Ok. Por isso a pergunta não é por que o Hezbollah capturou os soldados israelenses, mas por que Israel está destruindo o Líbano. E se eu admitisse que o Hezbollah cometeu um erro ao capturar os dois soldados israelenses, também não se justificaria a reação de Israel. A realidade é que isso não tem nada a ver com o seqüestro dos dois soldados. A resposta é: Israel e os Estados Unidos fizeram um plano para destruir o Líbano e o Hezbollah.
Sabendo o que o sr. sabe hoje, se o sr. pudesse voltar no tempo três semanas, o sr. acharia uma boa idéia seqüestrar os dois soldados?
Certamente.
Mesmo com toda essa destruição?
Por que você insiste em colocar a responsabilidade pela destruição em mim? É Israel quem está destruindo.
O sr. me desculpe. Meu papel é sempre fazer o advogado do diabo...
Eu sei e estou respondendo ao diabo. Por que todo mundo fala da nossa pequena operação e não dessa grande destruição?
Porque a pequena operação levou à grande destruição.
Mesmo se levarmos em conta as leis internacionais a reação não é justa.
O que seria uma vitória para o Hezbollah?
Se nós continuarmos unidos. O objetivo de Israel é nos destruir e o nosso é nos mantermos.
O que o sr. quer dizer com se manter? Ter armas?
Sim. Armas, comando e capacidade de lutar, de resistir.
Pelo jeito o sr. está considerando a possibilidade de que isso talvez não aconteça?
Isso não é uma possibilidade. Lutaremos até o final. Devo explicar o que é a nossa educação. É sobre a morte, vitória e mártires. Esta vida é temporária e a outra vida é eterna. Podemos agüentar o sofrimento. Nunca, nunca nos entregaremos.
O sr. considera a possibilidade de, no futuro, ver os lutadores do Hezbollah entrando no Exército e o grupo sendo apenas uma organização política?
É uma questão de oportunidade. É uma das opções. Não é a única. É uma possibilidade.
Há alguém dentro do Hezbollah que defenda o desarmamento e a entrada dos lutadores no Exército?
Ninguém.
E antes da guerra? Havia alguém defendendo o desarmamento?
Somos um partido democrático e tomamos decisões democráticas. A grande maioria dos membros do Hezbollah decidiu pela captura dos dois soldados israelenses.