Título: 'Tirem logo os brasileiros do inferno'
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/07/2006, Internacional, p. A12

¿Tirem os brasileiros do inferno que virou o Líbano o mais rapidamente possível.¿ Esse foi o pedido ouvido pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de brasileiros retirados do Líbano. Ontem, ele fez uma visita a Adana, cidade turca que serve de base para os estrangeiros que fogem da guerra. Entre os brasileiros resgatados, o apelo era para que o governo não abandonasse as pessoas que não conseguiram sair do país. Amir Taha, médico gaúcho que deixou o Líbano com a família, era um dos que não parava de pedir que a operação de retirada prossiga. O governo enviou um diplomata com 500 passaportes a Beirute para renovar os documentos daqueles que queiram deixar o Líbano.

Amorim percorreu os hotéis em que estavam os brasileiros e foi até o aeroporto despedir-se das pessoas que conseguiram embarcar ontem no vôo da Força Aérea Brasileira (FAB). O chanceler disse às pessoas que o governo conseguiu mais lugares em ônibus do que o total de passageiros previsto. ¿Tínhamos condições de retirar 400 pessoas do Vale do Bekaa, mas apenas 100 brasileiros se apresentaram para sair da região¿, contou ele, referindo-se ao terceiro comboio, com dez ônibus, que saiu do Vale do Bekaa.

Em Brasília, o chefe de gabinete da Secretaria-Geral de Relações Exteriores, embaixador Everton Vargas, disse que os ônibus atrasaram mais de uma hora para esperar eventuais retardatários, mas eles não apareceram. A caravana seguiu com os mesmos dez ônibus para não ser confundida com outros alvos pelos israelenses.

Mais tarde, Amorim admitiu que não sabe se haverá possibilidade de saída dos comboios caso a guerra piore. ¿A situação pode ficar bem mais difícil.¿ Brasileiros em Adana reconheceram os esforços do governo, mas alertaram que o ideal seria uma retirada em massa em um só dia. Amorim deixou claro que vem negociando com o governo de Israel para que os comboios não sejam atacados, mas admitiu não ter recebido nenhuma garantia de proteção.

A chanceler israelense, Tzipi Livni, sugeriu, segundo ele, que o Brasil use corredores humanitários para levar remédios e alimentos para a retirada. Já o governo turco informou ontem que pode hospedar outros mil brasileiros em colégios de Adana caso a guerra piore.

Durante a visita, o chanceler pegou crianças no colo, tirou fotos e deu entrevistas à imprensa local. Mas os próprios diplomatas dizem que Amorim ¿deu sorte¿ ao passar apenas por grupos que já sabiam que sairiam da região. Ele foi à decolagem do avião da FAB com 150 passageiros, mas não viu a chegada do comboio da Síria com brasileiros exaustos, tensos e sem saber o que ocorreria.

Ontem decolou de Damasco um Airbus da TAM com 225 pessoas. Amanhã partirá um Boeing da FAB com 80 brasileiros e no sábado outro com 150 lugares. Na sexta-feira, sairá da capital síria um vôo conjunto da TAM e da Gol com 220 cidadãos.