Título: Fazendo o Líbano pagar
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Fonte: O Estado de São Paulo, 15/07/2006, Notas e Informações, p. A3

Desde o seu estabelecimento, em 1948, o Estado de Israel, no seu interminável conflito com os vizinhos palestinos e os árabes em geral, não costuma se preocupar com a proporção entre as agressões que sofre e as represálias que aplica a seus inimigos. A reação israelense típica é quase sempre desproporcional às agressões dos seus inimigos que não aceitam a sua existência, mesmo depois da decantada e afinal esquecida ¿paz dos bravos¿, celebrada pelos líderes Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, em 1993. É duvidoso, no mínimo, que a rotina das retaliações excessivas tenha contribuído para fortalecer a segurança de Israel. E é incompreensível que uma nação tão pronta a invocar a história demonstre tamanha dificuldade em assimilar as suas lições.

Em 1982, Ariel Sharon invadiu o Líbano, chegando às cercanias de Beirute, para erradicar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). E, de fato, a direção do movimento fugiu para a Tunísia. Mas este sobreviveu e encarnou na Autoridade Palestina, criada também em 1993 pelos Acordos de Oslo. Em 1985, Israel recuou para o sul do Líbano, onde estabeleceu uma zona de segurança. Não logrou impedir, porém, os ataques do movimento Hezbollah, cuja resistência ao invasor, bancada pela Síria e o Irã, e a sua eficaz assistência à população pobre dele fizeram um Estado dentro do conflagrado Estado libanês. Em 2000, o premier Ehud Barak rendeu-se aos fatos e ordenou a retirada unilateral das tropas de Israel do país. O prestígio do Hezbollah subiu às nuvens em todo o mundo árabe-muçulmano.

Agora, porque os seus militantes capturaram 2 soldados israelenses e mataram outros 8 na fronteira com o Líbano - 17 dias depois que a versão palestina do Hezbollah, o Hamas, seqüestrou um soldado israelense na Faixa de Gaza -, Israel tornou a invadir o sul do Líbano, para em seguida isolar o país do mundo, bombardeando o Aeroporto de Beirute e a estrada para Damasco, bloqueando os seus portos e decretando zona de exclusão todo o espaço aéreo libanês. Com esse ato de guerra, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, promete acabar de vez com as agressões do Hezbollah. A julgar pelo retrospecto, conseguirá apenas levar a morte e a destruição ao Líbano, que já purgou entre 1975 e 1990 uma guerra civil arrasadora que fez 150 mil vítimas.

¿O Hezbollah decide quando entra em guerra e todos os libaneses acabam pagando por isso¿, resumiu, em entrevista ao Estado, o líder do Bloco Nacional Libanês, Carlos Eddé, nascido no Brasil. Para o Hezbollah e os seus financiadores sírios e iranianos, a represália que atinge os libaneses é lucro. Mas culpar o impotente governo de Beirute pelo seqüestro dos soldados, como fez Olmert, querendo, quem sabe, ser mais sharonista do que o seu mentor Sharon, equivale a culpar o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, pelo idêntico ultraje anterior do braço armado do Hamas (que parece não responder ao primeiro-ministro palestino, Ismail Haniyia, do mesmo grupo). Nesse caso, o seqüestro - depois de 16 meses de trégua cumprida pelo movimento - foi inicialmente uma reação ao bombardeio israelense que matou 7 civis numa praia de Gaza.

Depois, o Hamas propôs trocar o militar por palestinos presos em Israel. Afinal, em 2004, Sharon trocou - com o Hezbollah - cerca de 400 prisioneiros palestinos por um refém civil israelense e os corpos de 3 soldados mortos no Líbano. Eis algo que o fraco Olmert não ousará fazer. Fica no ar a questão de saber o que ele e os seus de fato imaginam alcançar com os ataques e o cerco ao Líbano. É tudo o que o mundo não precisa quando os Estados Unidos estão atolados no pântano iraquiano e quando o Irã desafia o Ocidente com o seu programa nuclear e o seu presidente compara Israel a um tumor.

Argumenta-se que na raiz do novo ciclo de violência infernal no Oriente Médio está a vitória eleitoral do Hamas na Palestina. A Carta do movimento prega a destruição de Israel, mas não foi por isso que conseguiram fazer mais deputados do que o incompetente e corrupto partido Fatah de Abbas. E, entre a morte do seu antecessor Arafat, que Israel não considerava um ¿parceiro para a paz¿, e a ascensão política do Hamas, não se tem notícia de um único gesto israelense que pudesse fortalecer diante dos seus rivais os moderados palestinos.