Título: Solução diplomática ainda está distante
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Fonte: O Estado de São Paulo, 15/07/2006, Internacional, p. A22

Embaixadores do Líbano e de Israel trocaram acusações ontem em uma reunião de emergência do Conselho de Segurança (CS) da ONU, em Nova York, que terminou sem nenhuma decisão para pôr fim ao conflito. Ao mesmo tempo, permanece o risco de envolvimento direto da Síria. Ontem o partido governista sírio, o Baath, expressou apoio ao grupo libanês Hezbollah, cujo ataque a Israel deu início à crise militar. E o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak disse a um jornal alemão que não está afastada a possibilidade de um ataque israelense à Síria.

O Líbano acusou ontem Israel de lançar uma "agressão bárbara generalizada" para dobrar o país e apelou ao CS para que adote uma resolução ordenando cessar-fogo e o fim do bloqueio naval e aéreo israelense a seu território.

Em resposta, o embaixador de Israel, Dan Gillerman, afirmou que seu país não tinha alternativa a não ser reagir ao "assalto totalmente sem provocação" do Hezbollah, que inclui disparos de foguetes. "A escalada e a extensão não têm precedentes em anos recentes. As ações de Israel foram em resposta a um ato de guerra do Líbano", disse Gillerman, alegando que os alvos dos bombardeios são basicamente posições do Hezbollah.

Vários embaixadores que falaram depois acusaram Israel de uso excessivo de força, destruição de infra-estrutura civil (como o aeroporto, estradas e pontes) e morte de civis. Gillerman reiterou que os foguetes do Hezbollah já mataram quatro civis e feriram centenas no norte de Israel.

Como as posições dos países no CS não apontam perspectiva de uma saída a curto prazo, o atual presidente de turno, o embaixador da França, Jean-Marc de la Sablière, avaliou que é muito cedo para uma resolução de cessar-fogo.

Instância máxima da ONU, o CS é integrado por 15 países, dos quais 5 são permanentes e têm poder de veto (EUA, Rússia, França, China e Grã-Bretanha). Na quinta-feira, os EUA vetaram resolução apoiada por nações árabes pedindo a condenação de Israel pela invasão e bombardeios da Faixa de Gaza, depois que militantes do Hamas capturaram um soldado israelense, no dia 25.

Uma solução imediata é improvável porque:

Os EUA - aliados de Israel e único país com alguma influência sobre o governo israelense - não parecem estar se empenhando no pedido de contenção a Israel. O presidente George W. Bush disse que o país tem o direito de defender-se e a Casa Branca deixou claro não ter interesse em se impor sobre Israel. Bush pediu ao país que não danifique a infra-estrutura civil do Líbano, para não inviabilizar o governo pró-Ocidente do primeiro-ministro Fuad Siniora. Segundo analistas, a Casa Branca não quer se incompatibilizar com o lobby judaico, faltando só quatro meses para as eleições legislativas americanas.

A Síria e o Irã, fonte de apoio político e financeiro ao Hezbollah, são acusados pelos EUA e Israel de estarem por trás das ações do grupo xiita. Síria e Irã estariam tentando aumentar seu poder regional num momento em que estão sob pressão dos EUA. Os sírios, sob a acusação de insuflar grupos rebeldes no Iraque e apoiar o grupo palestino Hamas; os iranianos, sob pressão do CS para abandonar sua atividade nuclear suspeita. Militares israelenses dizem que o Irã forneceu ao Hezbollah foguetes de maior alcance.

Em Israel, o primeiro-ministro Ehud Olmert, sucessor de Ariel Sharon, que era general e popular por ações duras contra o levante palestino, tem de mostrar que, apesar de não ter carreira militar, está à altura de defender o país. O bloqueio do Líbano foi de modo geral elogiado pela mídia local.

No Líbano, menos de 15 anos depois de uma guerra civil entre cristãos, muçulmanos xiitas e sunitas, e ainda em fase de reconstrução , tudo que o governo quer evitar é um conflito interno. Os xiitas são o maior grupo religioso e apóiam o Hezbollah, que integra o governo e controla o sul do país.