Título: No hospital, só vítimas de ataques
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Fonte: O Estado de São Paulo, 24/07/2006, Internacional, p. A8
Há exatamente duas semanas, na segunda-feira, dia 10, o Hospital Universitário Rafic Hariri, a menos de 10 minutos de carro do Aeroporto Internacional de Beirute, tinha 200 pacientes internados e atendeu por volta de 100 consultas. Isso era o normal até o começo da guerra.
Ontem, menos de cinco consultas foram realizadas. Dos 200 internados havia duas semanas, nenhum continuava lá. Os casos mais graves foram transferidos para outros hospitais, e os pacientes em melhores condições de continuar o tratamento em casa foram dispensados.
O hospital, considerado o melhor entre as instituições públicas do país, está todo voltado para as vítimas dos ataques israelenses. O departamento de emergência, que só seria inaugurado no final do ano, foi finalizado às pressas na semana passada, quando chegaram os primeiros feridos.
Os pacientes são todos da região sul, a mais atacada por Israel. Ao todo, são 33 pessoas, das quais 8, crianças. O caso mais grave é o de um menino que perdeu um olho. No Rafic Hariri, a única coisa que os médicos conseguiram fazer por ele foi colocar uma prótese. Wassim Fakhoury, do departamento pediátrico, explica que o principal objetivo agora é cuidar da parte física dos pacientes. Em seguida, a meta será tratar o estresse psíquico provocado pelas lesões.
A direção do hospital não sabe quando novos feridos chegarão, por causa da falta de acessos seguros entre a região sul e a capital. Mesmo com apenas três dezenas de pacientes, os médicos já estão preocupados. Os estoques de antibióticos e de soro estão no final, e os caminhões com doações internacionais não conseguem entrar no país. As reservas de alguns medicamentos não duram até quarta-feira.
O hospital está funcionando com somente 25% de seus funcionários. Os que estavam no trabalho quando o acesso a suas casas foi destruído estão dormindo nos leitos hospitalares. Mesmo os que conseguem ir para casa trabalham mais de 12 horas por dia. Antes da guerra, médicos e enfermeiros costumavam ter jornadas semanais de 40 horas. Agora, a carga dobrou.
A menina Oula Ahmad Ali está no Rafic Hariri com a tia. As duas são da parte da família que sobreviveu a um ataque israelense à cidade de Blida, na fronteira sul. O pai e a mãe de Oula estavam entre as 12 pessoas que morreram no momento da explosão da bomba.
A tia chegou a Beirute com a sobrinha numa ambulância da Cruz Vermelha. Por ora, sua principal preocupação é a recuperação da menina.