Título: G-8 não impede o fracasso de Doha
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/07/2006, Economia & Negócios, p. B1

Depois de mais de 14 horas de reuniões ontem em Genebra, os ministros dos seis principais atores da Organização Mundial do Comércio (OMC) não conseguiram desbloquear o processo da Rodada Doha e, na madrugada de ontem, já se falava em Genebra num provável colapso total das negociações. "Foi duro e muito difícil", disse um dos participantes do encontro.

O debate continua hoje para ver como manter vivo o processo, mas o pessimismo reina entre os diplomatas diante da persistência do impasse e da falta de flexibilidade de Estados Unidos e União Européia. Com a crise, as reuniões entre os ministros que estavam planejadas para a semana que vem serão canceladas e se cogita, até mesmo, a possibilidade de um entendimento para apenas salvar a imagem da organização em 2007.

A reunião era considerada como uma das últimas chances para que os países superassem suas diferenças e o encontro ganhou força depois que o G-8 declarou na semana passada a intenção de que um acordo fosse fechado até meados de agosto.

No encontro de ontem, Brasil, Índia, Estados Unidos, União Européia, Japão e Austrália (grupo conhecido como G-6), travaram uma verdadeira batalha diplomática para tentar encontrar um consenso sobre como reduzir subsídios agrícolas e tarifas de importação.

O diretor da OMC, Pascal Lamy, atuou como mediador. Todos concordaram que se manteria em sigilo toda informação que fosse passada de um ministro a outro. O encontro foi até mesmo transferido da sede da OMC para a missão dos Estados Unidos, para evitar a presença de jornalistas.

O chanceler Celso Amorim se recusou a dar qualquer detalhe do conteúdo do encontro. "Isso pode atrapalhar."

Toda a esperança era de que a Casa Branca apresentasse uma nova proposta de corte de subsídios. Pela idéia de Washington, a ajuda aos agricultores cairia de US$ 22 bilhões por ano para US$ 18 bilhões. Tanto os europeus como as economias emergentes julgam que o corte é pequeno.

Durante o encontro de ontem, Washington admitiu que poderia oferecer um corte maior. Mas isso somente ocorreria se Bruxelas aceitasse um corte maior de suas tarifas de importação de bens agrícolas. Os europeus, porém, não colocaram nada sobre a mesa, além do que já haviam oferecido antes.

Segundo as idéias iniciais de Bruxelas, o corte seria de 39%. Mas acatariam um aumento de até 51%, número que foi repetido ontem. Já o Brasil queria uma redução de 53%, enquanto os americanos pressionam por um corte de mais de 60%. Jacques Chirac, presidente francês, deixou claro no G-8 que seu país não estava disposto a fazer novas concessões.

Os americanos também condicionaram a oferta a uma abertura maior dos mercados agrícolas da Índia e de outros países emergentes. A representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, alertou que, se não aceitassem, a culpa pelo fracasso seria transferida às autoridades de Nova Délhi. O ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath, deixou claro que não se importava em ser acusado, já que não cederia.

Tudo indica que nem mesmo a intervenção dos chefes de Estado durante a reunião do G-8 na semana passada conseguiu facilitar uma aproximação das posições. Há uma semana, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush se reuniram em São Petersburgo e, segundo diplomatas que estiveram no encontro, 70% da conversa entre os dois foi sobre o futuro da OMC. "Quero um acordo grande", disse Bush, olhando para Lula.

Segundo o líder americano, também seria exigido mais do Brasil, mas garantiu que os países em desenvolvimento não sairiam de mãos vazias. "Vou pedir a vocês (Brasil) maior acesso a seus mercados. Mas estamos prontos a ceder também. Estou pronto para fazer mais."

Sem um acordo, dois caminhos podem ser seguidos. Um seria o adiamento em dois ou três anos. Outro, menos provável, é que Bush consiga de seu Congresso autorização para continuar negociando em 2007. Não por acaso, diplomatas confirmam que pode estar sendo desenhado um entendimento sobre como encaminhar o processo nos próximos meses, adiando decisões, mas não deixando que a OMC saia de cena. Para analistas, o colapso pode exigir que os países repensem suas políticas comerciais e estratégias para abertura de novos mercados.