Título: O colapso da Rodada Doha
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Fonte: O Estado de São Paulo, 25/07/2006, Espaço Aberto, p. A3
O Brasil e outros países em desenvolvimento serão os mais prejudicados pelo colapso das negociações globais de comércio. Lançada no fim de 2001, na capital do Catar, a Rodada Doha deveria ser conhecida também como a Rodada do Desenvolvimento, segundo a agenda aprovada, na ocasião, por mais de 140 governos. O resultado deveria ser um acordo comercial sem precedente pelo número de envolvidos, pela amplitude dos temas e pela promoção dos interesses das economias subdesenvolvidas e emergentes. A liberalização do comércio agrícola seria um dos passos para a realização desse objetivo. Na madrugada desta segunda-feira, as poucas esperanças de êxito desse empreendimento foram liquidadas, ou quase, numa reunião de seis dos principais negociadores na Embaixada dos Estados Unidos em Genebra. "Não chamaria o momento de desastroso, mas a verdade é que esta é a situação mais próxima que podemos ter do desastre", disse o chanceler brasileiro, Celso Amorim, evitando a palavra final sobre o colapso. O ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath, recorreu a uma comparação um tanto estranha. A rodada, explicou, não está morta, "mas a meio caminho entre a UTI e o crematório".
Talvez seja cedo para anunciar a morte da Rodada Doha e preparar seu funeral, mas é difícil, neste momento, evitar a impressão de um colapso definitivo. Há apenas uma semana, em São Petersburgo, chefes de governo das mais ativas potências negociadoras ordenaram a seus diplomatas um esforço concentrado. Prorrogaram até meados de agosto a busca de um acordo sobre as chamadas modalidades - as condições básicas para a reforma dos mercados agrícolas, industriais e de serviços. Falaram em maior flexibilidade e reafirmaram a pretensão de resultados à altura dos compromissos de Doha.
Representantes dos seis principais negociadores - Estados Unidos, União Européia, Japão, Brasil, Índia e Austrália - reuniram-se em Genebra para tentar o desbloqueio das conversações. Neste domingo, em vez de se reunirem na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), decidiram trabalhar na Embaixada dos Estados Unidos, para evitar a proximidade da imprensa.
Depois de 14 horas de trabalho, a OMC anunciou a suspensão não apenas do encontro, mas da rodada. A seqüência foi uma troca de acusações. Segundo o comissário de Comércio da União Européia, o britânico Peter Mandelson, os americanos foram inflexíveis e recusaram cortar mais amplamente seus subsídios internos à agricultura. Os americanos lançaram a culpa sobre os europeus, por não aceitarem maior abertura de seu mercado. Do lado dos emergentes, coube ao governo indiano resistir a maiores concessões, alegando que o mundo rico deveria dar a maior contribuição à reforma do comércio. "Perdemos a última saída da estrada", disse Mandelson.
A história ainda será contada em diferentes versões, mas sobre um ponto não pode haver dúvida. A responsabilidade principal pelo impasse cabe às potências desenvolvidas. Maiores concessões do Brasil e de outros emergentes teriam sido inúteis. Os negociadores dos Estados Unidos e da União Européia insistiram no jogo de espera, cobrando uns dos outros o lance inicial para destravar o processo. Uma semana antes, havia sinais de que os americanos se preparavam para responsabilizar os europeus pelo provável fracasso da tentativa.
Nesta mesma segunda-feira, a OMC liberou seu relatório anual de 2006, um documento dedicado principalmente a um estudo sobre os subsídios ao comércio. As subvenções anuais, cerca de US$ 1 trilhão, são pagas principalmente pelos governos do mundo rico. A suspensão das negociações condena as economias em desenvolvimento a sustentar um jogo extremamente desigual. Continuarão a enfrentar grandes barreiras, ações antidumping arbitrárias e enormes subsídios que distorcem os preços.
Restarão os acordos regionais, bilaterais e inter-regionais, que tornarão o comércio mais complicado. Entre as grandes economias, a brasileira é a menos preparada para esse jogo. Preso a uma visão terceiro-mundista, o governo do PT não teve o pragmatismo necessário para buscar acordos comerciais com os parceiros que mais interessam ao País. Se insistir nesse rumo, a conta, que já é pesada, poderá tornar-se desastrosa.