Título: Com ou sem Doha, o mundo não pára
Autor: Rolf Kuntz
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/07/2006, Economia & Negócios, p. B2

O governo brasileiro está disposto a fazer concessões na área industrial para facilitar a conclusão da Rodada Doha de negociações comerciais, disse em São Petersburgo, como convidado especial da reunião do G-8, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi sua manifestação mais importante e mais sensata sobre a emperrada negociação de comércio. Para reforçar sua afirmação, acrescentou não temer a reação contrária do empresariado brasileiro. O empresariado reagiu imediatamente. Em nota distribuída à imprensa, a diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) declarou-se preocupada com as palavras do presidente. O texto menciona várias desvantagens competitivas da indústria brasileira - o câmbio valorizado, o peso dos impostos, a burocracia excessiva "e outros gargalos".

Os dirigentes da Fiesp estão certos ao apontar essas dificuldades, mas sua manifestação foi no mínimo ambígua. Que mensagem pretenderam transmitir: 1) não apoiaremos nenhuma concessão enquanto essas desvantagens não forem eliminadas?; 2) precisamos trabalhar pela conclusão da Rodada Doha e devemos cuidar, internamente, da criação de melhores condições para competir?

A hipótese número 2 é a única posição realista. A conclusão da rodada é mais importante para o Brasil do que para os Estados Unidos, a União Européia, o Japão e a China. Se as negociações globais fracassarem, o mundo não vai parar. Os americanos continuarão a firmar acordos bilaterais e transformarão em regra - de fato, já estão transformando - a adoção de critérios que não interessam aos brasileiros. Ganharão a maior parte das paradas ao negociar normas para investimentos e para a propriedade intelectual. Isso já ocorre nos acordos com outros países das Américas e de outras partes.

Os chineses não serão detidos em seu avanço, até porque são credores de peso dos Estados Unidos. Continuarão tomando mercados em todo o mundo e deslocando os brasileiros. Estes nada ganharão se ficarem na defensiva. Sem o acordo global, haverá um estímulo mais forte para a busca de pactos comerciais entre os países do Atlântico Norte - e as economias em desenvolvimento serão mais uma vez prejudicadas. O Brasil ficará mais amarrado aos sócios do Mercosul, com a desvantagem adicional de ter de levar em conta os interesses do governo venezuelano e de outros que ainda tenham interesse em juntar-se ao bloco. Não será o caso dos governos latino-americanos mais pragmáticos.

Como não será possível paralisar o jogo por uma combinação com americanos, europeus e chineses, o mais prático será o governo brasileiro buscar, com urgência, um entendimento com o empresariado nacional. Se o presidente Lula estiver disposto a atuar com um mínimo de realismo, não terá outro caminho. Mas o empresariado também terá de se mexer. Não se pode continuar raciocinando como se fosse possível contratar Super-Homem para deter ou inverter o curso do tempo.

Internamente, a pauta necessária é conhecida e inclui os itens mencionados na nota da Fiesp. Nenhum daqueles problemas será resolvido de imediato e seria uma demonstração de irrealismo recusar qualquer nova abertura antes de uma solução completa. Mas é possível pensar num acordo em torno de uma agenda mínima e para isso o empresariado terá de trabalhar com muito mais eficiência política.

Não se pode acusar os empresários de haver silenciado em relação a questões estruturais. Mas se pode dizer, sem erro, que os líderes empresariais nunca se articularam para a defesa efetiva de uma pauta de competitividade. Poderiam ter feito muito mais pela reforma tributária. Foram capazes de pressionar o Congresso para obter, mais de uma vez, o refinanciamento de impostos em atraso, mas não souberam cuidar das questões de maior alcance.

Foram igualmente ineficientes, se não omissos, quando o governo petista manobrou para enterrar as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Houve até manifestações empresariais, em 2003, a favor de uma ação diplomática mais audaciosa, mas faltou uma efetiva mobilização - talvez porque uma parte do empresariado preferisse ficar acomodada. O resultado foi a multiplicação de acordos entre Estados Unidos e outros países latino-americanos, enquanto o Mercosul (e o Brasil mais ainda) perdia peso político na região.

É tempo de os empresários resolverem o que realmente desejam e de batalhar para valer por algo mais consistente que o refinanciamento de impostos. A menos, é claro, que julguem possível fechar o País e deter o tempo.

*Rolf Kuntz é jornalista