Título: 'Reserva dá para pagar a dívida'
Autor: Adriana Fernandes e Renata Veríssimo
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/07/2006, Economia & Negócios, p. B5

O Brasil já tem dólares suficientes para quitar toda a dívida externa do governo, que no passado já foi o maior problema da economia brasileira. Mas, no afã de colher os louros do novo cenário das contas externas, em meio à campanha eleitoral, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se meteu numa nova trapalhada.

Ao anunciar o feito, ele acabou superestimando a notícia: "Talvez seja a primeira vez na historia do País que nós tenhamos essa situação." Horas depois, o Tesouro Nacional divulgou gráficos que mostravam que essa situação já havia ocorrido em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso.

Apesar de os gráficos mostrarem o contrário, o texto do Tesouro afirmava que o País tinha assumido este mês uma posição "inédita" de credor em dólar, o que provavelmente induziu o ministro ao erro. Há duas semanas, Mantega divulgou números sobre investimentos públicos que o Estado mostrou estarem inflados por problemas na metodologia de cálculo do Tesouro. A assessoria de imprensa do ministro alegou que a situação em 1998 era pontual, numa situação de câmbio fixo. Agora, o quadro era relevante porque o País vive sob um regime de câmbio flutuante.

Pelos dados divulgados pelo ministro, as reservas do País ultrapassaram os US$ 64 bilhões, mais que a dívida externa da União, de US$ 63,28 bilhões. Em junho de 98, porém, as reservas estavam em US$ 70,898 bilhões e a dívida federal, em US$ 66,943 bilhões. Antes de divulgar os números, com o documento do Tesouro nas mãos, o ministro já tinha feito o comunicado ao presidente Lula.

Apesar de considerar positivo para a economia, o economista da MB Associados, Sérgio Vale, disse que, num país normal, a notícia não mereceria tanto destaque, mas, em época de campanha, ganha apelo. "É bom para propaganda, mas é também um indicador positivo de que as contas externas são saudáveis."

Para o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas, a nova situação pode acelerar a queda da taxa básica de juros, a Selic. "O prêmio de risco do Brasil deve cair e, conseqüentemente, as taxas de juros de longo prazo. Com isso, a Selic pode cair mais rápido."

Freitas ressaltou que em janeiro o governo já havia zerado a dívida interna vinculada à variação do dólar, passando na época a ser credor nessa moeda. Segundo o ex-diretor, depois da moratória da dívida externa, nos anos 80, o Brasil nunca havia estado numa situação tão confortável. "É um ganho da mudança da política cambial, em 1999, com a adoção do câmbio flutuante", disse.

Para Mantega, o Brasil saiu do cheque especial e é agora credor. Segundo ele, esse quadro assegura maior tranqüilidade para o País enfrentar turbulências do mercado internacional. "Sem reduzir essa vulnerabilidade, não se pode ter crescimento sustentado. Na primeira turbulência, se o País está fragilizado, se depende de capitais externos, acaba interrompendo o crescimento que estiver em curso." Agora, avaliou, o crescimento da economia brasileira não será interrompido por turbulências externas. "É uma grande meta que foi atingida."