Título: México terá vencedor já no domingo
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/06/2006, Internacional, p. A16

Confiante na vitória nas eleições deste domingo, Felipe Calderón, o candidato do Partido de Ação Nacional (PAN), do presidente Vicente Fox, pediu, ao encerrar sua campanha, na quarta-feira, "que se respeitem os resultados das urnas". O oposicionista Andrés Manuel López Obrador, que terminou a batalha eleitoral com vantagem de um par de pontos sobre Calderón, mas dentro da margem de erro das pesquisas que o puseram na dianteira, deixou o caminho aberto para impugnar o resultado, se não for o vencedor. "Estamos à frente nas intenções de votos, mas precisamos ganhar por margem ampla, para que não nos neguem nosso triunfo", disse ele em seu último discurso como candidato, insinuando a possibilidade de ser vítima de uma fraude.

A hipótese de Calderón ganhar por pequena margem e ter a vitória contestada pelo adversário causa enorme ansiedade entre comentaristas da política mexicana. Também e já levou mais de um analista de Wall Street a alertar seus clientes sobre a possibilidade de volta da instabilidade no México.

O advogado José Luis Ugalde, presidente do Conselho Federal Eleitoral (IFE) e principal árbitro da votação, descarta a fraude e diz que não está preocupado com cenários de pesadelo. "O 2 de julho será mais um dia normal de eleição", afirmou ele quarta-feira em entrevista ao Estado. "Os mexicanos votarão e aceitarão o veredicto das urnas."

Um advogado de 42 anos, Ugalde dirige um contingente de 13 mil funcionários permanentes do IFE e 14 mil temporários, contratados especialmente para as eleições. "Há um desânimo da população em relação aos partidos e aos políticos, mas não vemos nenhuma preocupação em relação à eleição."

A pequena margem de diferença que as pesquisas de opinião indicam entre López Obrador e Calderón não parece ter diminuído a confiança de Ugalde de que estará em condições de anunciar o ganhador do pleito ao país às 23 horas de domingo, três horas depois do fechamento da última urna.

Segundo ele, a amostragem de 7.636 - de um total 130 mil - seções eleitorais que o IFE usa para fazer a primeira apuração manual dos votos em cédulas à prova de falsificação e projetar o resultado tem uma margem de erro de apenas 0,3%, que se compara a 3% das projeções feitas a partir de pesquisas comerciais de boca-de-urna. "Isso nos permite projetar o resultado com grande segurança se a diferença entre o primeiro e o segundo colocados for superior a 0,6%", explicou. Por medida adicional de precaução, o IFE usa 1% de diferença como critério para cravar o ganhador. A apuração estará concluída na manhã da segunda-feira.

Ugalde dá uma resposta política quando perguntado, como foi várias vezes esta semana, sobre o que acontecerá se a diferença não passar de 1% e o segundo colocado contestar o veredicto.

"O IFE tem 70% de apoio e é a instituição pública que tem mais credibilidade no país", disse. "Além disso, não acredito que se possa questionar a honestidade de mais de 900 mil pessoas que atuarão como mesários e farão a apuração dos votos nas seções eleitorais, porque isso seria contestar a própria sociedade mexicana."

A decisão do presidente Vicente Fox, na semana passada, de nomear o fundador do partido de López Obrador, Cuauhtemoc Cárdenas, para presidir uma comissão nacional que organizará a comemoração do segundo centenário da independência do país e o centenário da revolução mexicana de 1910, é vista nos meios políticos como um seguro adicional para garantir o respeito ao veredicto que o IFE anunciar, particularmente se este favorecer Calderón.