Título: Fed eleva juro e sinal de que aperto pode estar no fim anima mercados
Autor: Renée Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/06/2006, Economia & Negócios, p. B1

A sinalização de que o aperto monetário dos Estados Unidos pode estar perto do fim deu novo ânimo ontem aos investidores. Após a reunião, que elevou em 0,25 ponto porcentual a taxa básica de juro, para 5,25% ao ano, o Banco Central americano (Fed) divulgou comunicado em que afirma que a economia está crescendo de forma mais moderada e que isso pode ajudar a limitar as pressões sobre os índices de preços. Foi o suficiente para entusiasmar o mercado financeiro, que andava mal-humorado nas últimas semanas.

As Bolsas fecharam com forte alta e o risco dos emergentes recuou 3,93%, para 220 pontos. Em Nova York, a Nasdaq subiu 2,96% e o índice Dow Jones, 1,98%. O Standard & Poor's 500, que reúne os papéis das maiores companhias americanas, subiu 2,16%. Na Europa, as Bolsas estavam fechadas quando o Fed anunciou a 17ª alta consecutiva do juro. O mercado europeu fechou em terreno positivo, o que deve se repetir hoje. Na América Latina, a Bolsa do México subiu 4,46% e a argentina, 3,52%.

O mercado brasileiro acompanhou Wall Street e teve forte valorização. A Bolsa de Valores de São Paulo fechou em alta de 4,74%, na pontuação máxima do dia (36.486). O dólar também refletiu o humor dos investidores e caiu 2,12%, a R$ 2,173. Os títulos brasileiros negociados no exterior também se valorizaram bastante. O BR-40 subiu 1,48%, para 123,65% do valor de face, e o A-Bond, 1,3%, para 105,30%. Com isso, o risco país recuou 5,38%, para 246 pontos.

Mas o otimismo de ontem não significa o fim da volatilidade, diz o economista da Gap Asset Management, Alexandre Maia. O Fed deixou claro na ata que estará monitorando os indicadores da economia. Segundo a autoridade monetária, "a extensão e a ocasião de qualquer aperto adicional que possa ser necessário para lidar com os riscos (de inflação) dependerá da evolução das perspectivas da inflação e do crescimento econômico com base nos próximos indicadores". Isso significa que o mercado estará atento a esses números e vai reagir conforme o desempenho de cada um.

O ponto positivo da nota do Fed é o que afasta, ao menos por enquanto, o temor de que os juros subam além dos 6%, diz o economista da MCM Consultores, Antonio Madeira. Boa parte dos economistas acredita que o Fed elevará 0,25 ponto porcentual na taxa de juros em agosto. Depois, haveria paralisação.

Nas semanas que antecederam a decisão de ontem, muitos investidores ficaram temerosos com o que poderia ocorrer e desfizeram várias aplicações em ativos de maior risco, como os de países emergentes. A elevação do juro americano significa desaquecimento da economia mundial. Nesse cenário, os investidores preferem se refugiar em aplicações mais conservadoras e de menor risco, como os títulos americanos. No Brasil, a Bolsa paulista registrou saída de recursos estrangeiros de R$ 1,5 bilhão em maio e de R$ 2,2 bilhões em junho (até dia 20).

Para o gerente operacional de Bovespa da corretora SLW, Cesar Alberto Lopes, a tendência é o mercado se acomodar um pouco, mas com alguma volatilidade. Nos dois últimos dias, diz, o mercado brasileiro já percebeu uma pequena volta dos investidores estrangeiros, pois todos davam como certa a alta de 0,25 ponto de ontem. A dúvida eram os sinais que o Fed daria após a reunião. Lopes aposta que o Fed já concluiu o ciclo de aperto monetário.

Na avaliação da Austin Rating, o último aumento virá em agosto: "Será a última alta, pois o Fed não pode correr o risco de errar na dose e desaquecer a economia além do desejado."