Título: Comissão mira no Ministério da Saúde e em outras 3 pastas
Autor: Fausto Macedo e Eugênia Lopes
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/08/2006, Nacional, p. A5
O grau de envolvimento de setores do governo federal com a máfia dos sanguessugas, segundo avaliação da CPI que rastreia a compra de ambulâncias superfaturadas, levou a comissão parlamentar a criar uma sub-relatoria que terá a missão exclusiva de investigar o Poder Executivo. Além do Ministério da Saúde, outros três estão na mira da CPI: Educação, Ciência e Tecnologia e Comunicações.
O relator da CPI, senador Amir Lando (PMDB-RO), indicou para os cargos de sub-relatores os deputados Gastão Vieira (PMDB-MA) e Júlio Redecker (PSDB-RS) e o senador Flávio Arns (PT-PR).
Lando negou ontem que esteja amarrando a apuração, em troca de suposto apoio do governo Lula à sua campanha ao governo de Rondônia. "Isso é uma ignomínia", declarou o senador que, em seguida, anunciou a instalação da sub-relatoria do Executivo.
A estratégia da CPI é divulgar inicialmente o relatório com os nomes de todos os parlamentares contra os quais existem provas materiais - notas fiscais, bens móveis e imóveis, depósitos bancários. "É um trem que tem que partir no próximo dia 18", afirmou o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), vice-presidente da CPI.
Depois dessa etapa, a comissão vai apontar o foco para os ministérios. A CPI tem prazo até 18 de dezembro para concluir os trabalhos. Os ministérios foram citados pelo empresário Luiz Vedoin, base da acusação que abalou o Congresso. Ele revelou dados sobre compras de ônibus escolares e outros negócios afetos aos ministérios.
Integrantes da CPI avaliam que já existem motivos suficientes para convocar pelo menos dois ex-ministros da Saúde do governo Lula: o deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG) e Humberto Costa (PT), candidato ao governo de Pernambuco. A idéia, no entanto, esbarra na oposição do presidente da comissão, o Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ). Entrevistado ontem à noite pelo programa Roda Viva, da TV Cultura, ele disse que "não há nada até agora que comprove responsabilidades" dos ministros e não aceitará "transformar a investigação num showmício de campanha eleitoral". Biscaia garantiu, ainda, que há provas consistentes contra "pelo menos 80" dos 90 indiciados.
Além da sub-relatoria para investigar o Executivo, a CPI pode criar hoje outra frente de investigação, relativa às prefeituras. "São quase 500 prefeituras envolvidas no esquema", afirmou Jungmann.
O depoimento do empresário Ronildo Pereira Medeiros, apontado como um dos agentes da máfia dos sanguessugas, complica ainda mais a situação do ex-chefe de gabinete do Ministério da Saúde Antônio Alves. A revelação foi feita pelo deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), membro da CPI. "O depoimento (de Ronildo) aprofunda ainda mais, compromete ainda mais Antônio Alves", assinalou Gabeira. Ele está indignado com o sigilo do processo, decretado pela Justiça. "Estudo uma ação judicial para derrubar o segredo do inquérito. É um absurdo a lacração dos depoimentos", afirmou.
Na avaliação de Gabeira, não há necessidade de convocar o ex-ministro da Saúde José Serra, hoje candidato ao governo paulista. Existe uma única referência a Serra em todo o processo - Luiz Antônio Vedoin, filho de Darci, contou que preferia a vitória do tucano para a Presidência, em 2002.