Título: Chávez troca bondades por aval político
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/07/2006, Economia & Negócios, p. B1
A adesão da Venezuela ao Mercosul, oficializada ontem, em Caracas, com a assinatura de um protocolo, e o salto de mais de 120% nos preços internacionais do petróleo desde 2003 dão ao presidente Hugo Chávez a ferramenta de política externa de que precisa para estender ainda mais seus tentáculos sobre a América do Sul.
Com os cofres cheios de petrodólares, Chávez já vem espalhando "bondades" entre os países da região, em troca de apoio político para as suas iniciativas. Já foram anunciados investimentos na Argentina, na Bolívia, no Brasil, na Colômbia e no Uruguai, num total de US$ 6,2 bilhões.
Após dar apoio total à eleição de Evo Morales na Bolívia, por exemplo, Chávez colocou em execução um pacote de ajuda. Prometeu o abastecimento regular de petróleo, de diesel e GLP àquele país. Injetou US$ 100 milhões em projetos de infra-estrutura e mais US$ 30 milhões na área social.
O presidente venezuelano também enviou técnicos da estatal Petróleo de Venezuela S. A. (PDVSA) para assessorar o inexperiente governo Evo Morales na formulação do decreto que nacionalizou o setor de gás e de petróleo e na recriação da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB). Além disso, a estatal PDVSA vai investir na exploração de petróleo, gás e minérios na Bolívia.
Chávez decidiu, ainda, investir na industrialização da coca. Em troca de todas essas generosidades, Evo aceitou apoiar a Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), uma tentativa de se opor ao falecido Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca).
ARGENTINA Outra beneficiada com os petrodólares venezuelanos é a Argentina. Chávez comprou US$ 2,5 bilhões em bônus da dívida pública do país em maio do ano passado. Este ano, comprou mais US$ 239 milhões.
A Argentina e o Brasil são sócios da Venezuela em outro projeto, a Petrosur, uma parceria entre as petroleiras estatais da América do sul.
São parceiras, também, no Gasoduto do Sul, uma obra estimada em US$ 20 bilhões que levará o gás venezuelano a cinco países sul-americanos e se conectará às jazidas da Bolívia, se for levada adiante. Estimulado por essa "tríplice aliança", Lula aceitou o acordo entre a Petrobrás e a PDVSA para a construção de uma refinaria de petróleo venezuelano em Pernambuco, ao custo de US$ 1,250 bilhão para cada país.
As aproximações políticas de Hugo Chávez também se estenderam ao Uruguai do socialista Tabaré Vázquez, onde ele injetou pelo menos US$ 642 milhões: desde a compra de postos de gasolina na Argentina, pertencentes à uruguaia Ancap, até a conversão de uma refinaria, passando por várias doações para hospitais.