Título: PT reage a Marco Aurélio, do TSE, que citou o escândalo Watergate
Autor: João Domingos, , Mariângela Gallucci
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/09/2006, Nacional, p. A8

O novo coordenador da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Garcia, e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello, discutiram em público, ontem, via jornalistas. O ministro cobrou do governo transparência, a 'verdade real', e investigações sem sigilo. O coordenador e assessor especial da Presidência reagiu dizendo que as declarações tinham 'conotação partidária'.

Na primeira entrevista como coordenador de campanha, Garcia chegou a perder a paciência com os repórteres. Confrontado com a declaração dada por Marco Aurélio Mello ao Jornal do Brasil - de que o dossiê Vedoin é mais grave do que o caso Watergate -, Marco Aurélio Garcia manifestou a intenção de responder de maneira serena: disse que não comentaria nada, por respeito ao Judiciário. Mas logo abandonou a intenção: 'Acho que é uma opinião de tom muito impressionista, no mínimo eu diria que é exagerada, para não dizer que pode ter alguma conotação partidária. Acho que nós respeitamos a Justiça Eleitoral, o Poder Judiciário e, portanto, nós queremos simplesmente que haja uma isenção muito grande na investigação'.

Diante da resposta, o jornalista replicou: 'O senhor está dizendo que o presidente do TSE age partidariamente?' Gritando, Garcia respondeu: 'Eu não estou dizendo nada, não estou dizendo nada.' E já aos berros: 'Nada, viu?' Mais calmo, acrescentou: 'Estou dizendo que não me parece que caiba a qualquer Poder da República, menos ainda ao Poder Judiciário, fazer avaliação de caráter qualitativo como essa. O Poder Judiciário tem à sua disposição leis para avaliar e julgar essa situação. Não estou censurando meu xará, não.'

É MAIS GRAVE, SIM

Marco Aurélio Mello não demorou a reiterar o que dissera ao JB. Informado das declarações de Garcia, o presidente do TSE reafirmou que julga o escândalo do dossiê Vedoin mais grave do que o do Watergate, episódio que, nos anos 70, levou o presidente dos EUA, Richard Nixon, à renúncia. 'É muito pior a partir do contexto, do somatório de notícias de escândalos que nós tivemos nos últimos anos', afirmou o ministro. Ao defender a isenção do Judiciário, acrescentou: 'A Justiça Eleitoral não está engajada em qualquer política, a não ser na política institucional de prevalência da ordem jurídica'. Ele defendeu, ainda, que o processo sobre o dossiê Vedoin seja público para que a sociedade acompanhe o seu andamento.

Na avaliação de Marco Aurélio Mello, 'todos ficaram perplexos' com as recentes notícias. Nesta semana, a pedido da coligação que tem como candidato ao Planalto o tucano Geraldo Alckmin, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, César Rocha, abriu investigação no TSE para apurar se autoridades como o presidente Lula e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, participaram nas negociações do dossiê.

'A publicidade é a tônica na administração pública. É o que permite o acompanhamento pelos cidadãos. Não há motivo, a meu ver, de início, para implementar-se aí o sigilo quanto à tramitação do processo. O processo, de início, é público', afirmou Marco Aurélio.

'São fatos, desde início, que deixam a todos perplexos. Agora, nós precisamos esclarecer esses fatos, buscar a verdade real, o que realmente ocorreu e o grau de envolvimento de cada qual dos que estão citados no processo', disse. Na conversa com os jornalistas, o presidente do TSE admitiu que os fatos que estão na mídia podem ter repercussão na eleição do dia 1º de outubro, mas afirmou que é cedo para falar em conseqüências: 'Pode repercutir, sem dúvida alguma.'

Marco Aurélio Mello disse que está de 'portas abertas' no tribunal, mas que não vai procurar Garcia. 'Eu não vejo no cenário um mal-entendido. Não cabe esse contato por iniciativa do presidente do Tribunal Superior Eleitoral.'