Título: Polícia Federal aumenta número de operações em ano eleitoral
Autor: Vannildo Mendes
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/08/2006, Nacional, p. A4
Embora negue qualquer viés político em sua atuação, a Polícia Federal intensificou as operações de combate à corrupção neste ano eleitoral. De 1º de janeiro a 18 de agosto, foram realizadas nada menos que 74 operações, contra 61 ao longo de todo o ano passado. O número é quase quatro vezes maior que o registrado no primeiro ano do governo Lula - 16 operações - e 80% maior que o total de 2004, quando houve 42 ofensivas da Polícia Federal.
O balanço da PF, usado como trunfo na campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mostra que as operações deste ano levaram à prisão de 1.050 pessoas - 523 delas por corrupção, das quais 220 servidores públicos. De 2003 até agora, foram presas 3.342 pessoas de todo o País nessas operações, das mais diferentes camadas econômicas, condição social e militância política. Desse total, quase 2.000 respondem a processo por corrupção - ativa e passiva - e 670 são servidores públicos.
O levantamento das operações mostra que o combate à corrupção, uma das bandeiras da gestão Lula, seguiu trilha de crescimento constante. O uso dessa bandeira tem levado a oposição a acusar o governo de politizar a ação da PF, colocando a instituição a serviço da reeleição.
A média alcançada pela Polícia Federal neste ano atingiu a marca de mais de dez operações por mês. À medida que o calendário eleitoral avança, o ritmo tem se intensificado. De 1º de julho para cá, a PF realizou 20 operações, 12 das quais só nos primeiros 18 dias de agosto. Na última semana, houve quase uma operação por dia. Para se ter uma idéia da amplitude desses números, a soma de prisões por corrupção apenas deste ano supera a dos quatro anos do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1998-2002), quando foram presas 490 pessoas.
O governo alega que todas as ofensivas policiais são fruto de investigações que começaram há dois anos ou mais e passaram por um longo processo de maturação, com escutas e ações de inteligência antes de serem desencadeadas. "Operações como essa não podem ser apressadas nem retardadas. Elas amadurecem com escutas, investigações, inteligência e construção de conexões", disse o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, em entrevista concedida na quinta-feira, logo após a Operação Dilúvio, na qual 118 pessoas tiveram a prisão decretada, acusadas de envolvimento no maior esquema de fraudes em importações desmantelado no País até agora. "Não há nenhum tipo de intencionalidade em fazer operação por causa da eleição", afirmou.
Desde a eleição passada, o governo Lula elegeu o combate à corrupção como uma de suas principais bandeiras.
ALIADOS
Esse ímpeto foi arrefecido porque as investigações começaram a esbarrar em membros da equipe petista. Já em 2004, o Palácio do Planalto foi surpreendido com a divulgação de uma fita de vídeo em que o então chefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, ligado ao então ministro José Dirceu, negociava propina com o empresário de jogos Carlos Cachoeira.
A seguir, em 14 de maio de 2004, altos dirigentes petistas, entre os quais o ministro da Saúde, Humberto Costa, foram alcançados pelas investigações da Operação Vampiro, que desmantelou quadrilha que há anos sangrava dinheiro público com fraudes nas licitações para compra de hemoderivados.
Os números mostram que a corrupção tem sido alvo preferencial da Polícia Federal. Desde 2003, foram realizadas 193 megaoperações, 101 delas dedicadas ao combate à corrupção. Os números incluem a Operação Dilúvio, que prendeu 20 acusados de corrupção.
Se forem considerados os inquéritos pontuais, derivados de CPIs ou de investigações especiais, como a do caso Waldomiro Diniz, o total de operações relevantes da PF no governo Lula chega a 280, metade delas dedicadas ao tema corrupção, segundo o Ministério da Justiça. Por conta disso, entre os presos há regularmente desembargadores, juízes, policiais, promotores, prefeitos, secretários de Estado e parlamentares de todos os partidos. A lista inclui até ex-governadores.
Um deles, Flamarion Portela, de Roraima, era filiado ao PT quando foi apanhado pela Operação Gafanhoto, em 2004. Viu seu mandato cassado. Por envolvimento na mesma quadrilha, que desviava recursos do Estado, foi preso o ex-governador Neudo Campos (PP), também de um partido da base governista no Congresso.