Título: Refugiados em seu próprio país
Autor: Angélica Santa Cruz
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/08/2006, Internacional, p. A22
Maria Ângela de Borba Baldo Ghoussein é uma paulistana da gema, casada com um libanês cristão, mãe de dois filhos. Levou em Beirute uma vida confortável, apoiada nos lucros de seu restaurante e nos costumes liberais de uma cidade cosmopolita. Há um mês, juntou dinheiro às pressas, disse ¿até mais¿ para o marido, embarcou no primeiro avião enviado pelo Itamaraty para retirar brasileiros da guerra no Líbano e enfrentou uma viagem de 32 horas - até chegar a São Paulo para entrar em uma categoria estranha: a dos refugiados em seu próprio país.
Distribuídas em 18 vôos lotados, 2.950 pessoas saíram do território libanês na maior operação de resgate em áreas de conflito já feita pelo governo brasileiro. Apinhados nos aviões, vieram ricos e pobres, integrantes de famílias de origem sunita, xiita, cristã ou drusa. Agora, estão espalhados pelo Brasil, acomodados na casa de amigos ou parentes e com a família divida. E a maioria precisa decidir se fica no país onde nasceu ou volta para o lugar onde construiu sua vida.
O Brasil tem 3.500 refugiados oficiais, expelidos de 70 nações, de acordo com o Ministério da Justiça. São pessoas com visto provisório para estudar e trabalhar no país. Da leva que fugiu do conflito no Líbano, 46 reivindicaram autorização para se movimentar legalmente - mas a maioria se encaixa em uma situação que escapa à burocracia, porque é feita de brasileiros que construíram sua biografia no Líbano por descendência ou casamento e saíram às pressas de sua pátria de adoção. ¿Somos quase um tipo novo de refugiados¿, resume Maria Angela, mãe de Catharina, de 9 anos, e Anthony, de 5, crianças que entendem português, gostam do Brasil e trouxeram do conflito pequenos traumas, como o de ficar ressabiadas com barulhos de aviões. ¿Vai ter buuum, mãe?¿, quer saber o caçula. IR OU VIR
Bombardeado por aviões israelenses, o aeroporto de Beirute voltou a funcionar mas ainda de forma precária. Para boa parte dos brasileiros com os pés fincados no Líbano, a reabertura deve determinar a recuperação de famílias divididas. Na grande maioria dos casos, os homens ficaram para impedir a invasão de seu patrimônio e despacharam mulheres e crianças com o máximo de dinheiro que se pôde juntar em algumas horas.
O número de crianças nos aviões era tão grande que alguns foram chamados pelos funcionários do Itamaraty de os ¿vôos dos bebês¿ - em um deles, da TAM, havia 36 crianças de colo. ¿Tinha crianças dormindo até nos corredores¿, conta Hanadi Abbas, 19 anos, filha de libanês muçulmano e brasileira católica e que está na casa de irmãos em Foz do Iguaçu, esperando pelo que ¿vai ser de minha vida: brasileira ou árabe?¿.
Mulheres no Brasil, homens no Líbano, a questão em meio aos escombros do conflito é saber onde reunir a família ¿Se eu for encontrar meu marido, há o risco da guerra voltar e a certeza de que o restaurante vai fechar por falta de freguês. Se ficar, nem sei por onde começar, mas estou procurando emprego¿, resume Maria Angela.
Vânia Moussa, paulista descendente de italianos, é dona de uma mercearia em Beirute e tem contato tão estreito com libaneses que já fala português com sotaque árabe. Tem duas filhas nascidas no Brasil, Carolina, de 18 anos e Daniela, de 16 - e uma caçula árabe, Gabriela, de 4 anos. A família saiu do Líbano aos trancos e barrancos e ainda está baratinada, sem saber se deve voltar.
No dia 22 de julho, Vânia e Daniela foram se despedir de amigas que entravam em um comboio para o Brasil e viram que havia uma vaga sobrando. ¿Joguei a minha filha sozinha em um ônibus coberto com a bandeira do Brasil¿, conta. Daniela viajou por 22 horas, chorando a maior parte do tempo. Dois dias depois, Vânia e as outras duas filhas conseguiram embarcar. Agora, estão na casa de um tio, em São Paulo.
Casada com um libanês cristão que trabalha na África, Vânia está com a vida paralisada. Naquele mecanismo típico de refugiados, tenta ficar em contato com amigas libanesas ou refugiadas. ¿Elas são as minhas referências, minha família¿. Carolina, a filha mais velha, quer ficar no Brasil. Daniela quer voltar para o Líbano. ¿E eu simplesmente não sei nem se devo alugar uma casa. Ainda não tenho a sensação de estar em casa¿.
A GUERRA DE PERTO
Há de tudo entre os refugiados brasileiros: muçulmanos e cristãos das novas gerações com costumes liberais, pessoas mais velhas com hábitos arraigados, gente a favor ou contra as ações do Hezbollah. E há os que só se assustaram com o barulho de bombas - e os que viram a guerra de muito perto.
Gassan Masri nasceu no Brasil, filho de libaneses de origem drusa. Em 2002, foi morar com a mulher , a brasileira Margareth, e duas filhas perto de Beirute - porque queria ficar próximo dos pais, donos de terras no sul do Líbano. Construiu um padrão de classe média alta. Abriu uma Lan House, comprou uma casa, apartamento, três bons carros. Quando a guerra estourou, no dia 12 de julho, deparou-se com uma vida conflagrada. Só conseguia dormir nos intervalos dos bombardeios - das 5h45 às 10hs e das 17h45 às 22 hs. E viu os efeitos da bombas da pior maneira. ¿Ajudei a tirar crianças mortas e feridos de escombros¿.
Gassan decidiu fugir para o Brasil. O pai, de 71 anos, quis ficar para evitar invasões em suas terras. Sem bagagem, com o passaporte colado ao corpo e os U$ 100 que cada cliente podia sacar nos bancos, alugou uma van e foi com a mãe, Sihan, de 64 anos, a mulher e as filhas, Juliana, de 12 anos, e Gabriela, de 10, em direção ao local de saída dos comboios. Na estrada, viu uma bomba explodir a poucos quilômetros de distância. ¿A gente andou por 30 km até achar os comboios¿.
A família de Gassan mora agora nos fundos da casa de uma amiga, no bairro da Lapa, em São Paulo, usa roupas doadas e ganha cestas básicas. Juliana e Gabriela foram matriculadas em uma escola pública. Gassan e Margareth procuram emprego todos os dias. ¿ Em algumas semanas, fiquei sem nada¿, diz. Gassan acorda assustado quando ouve aviões passando e, durante o jogo São Paulo x Inter, precisou consolar a filha mais nova, apavorada com os fogos de artifício. ¿Só volto ao Líbano para buscar meu pai. Para morar, nunca mais¿.
Filho de libaneses sunitas, Amin Saad morou por 8 anos com o pai, no Vale do Bekaa, região no leste do Líbano com predominância de muçulmanos e vilarejos onde se fala português. Saiu do Brasil aos 23 anos - e se adaptou rapidamente ao Líbano. Fugiu assustado com ¿os estrondos, a fumaça, o cheiro de carniça¿ deixados pela guerra e para ¿forçar o pai a voltar também¿. Agora procura emprego em São Paulo, mora na casa de um irmão e resume os efeitos da retirada brasileira: ¿não há como negar: somos uns refugiados estranhos¿.