Título: Indústria pisa no freio e crescimentodo PIB pode ficar abaixo de 3,5%
Autor: Márcia De Chiara
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/08/2006, Economia, p. B1
O ritmo de atividade da indústria e do comércio começou o segundo semestre com o freio de mão puxado. Há fabricantes de TVs e fogões dando férias coletivas neste mês para enxugar os estoques no comércio e nas fábricas.
Uma conjugação negativa de fatores, como juros reais elevados, crise agrícola, perda de dinamismo do setor exportador e aumento da inadimplência, jogou um balde de água fria nas expectativas positivas dos empresários para este semestre. Eles apostavam que a Copa do Mundo, seguida das eleições, e o impacto da redução dos juros básicos, iniciada em setembro do ano passado iriam desembocar no aquecimento significativo das vendas na virada do segundo semestre.
Na prática, o ritmo de produção e vendas de julho e agosto indica que a expansão de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), prevista pelo governo para 2006 é cada vez mais uma miragem. Em junho, a produção da indústria medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recuou 1,7% na comparação com maio, descontados os efeitos típicos do período, por causa do menor número de dias úteis e as paralisações provocadas pela Copa e pelos ataques do PCC.
Neste mês, houve reação positiva em relação a junho e julho, dizem os empresários, mas ainda insuficiente para elevar a produção ao nível inicialmente previsto. Por isso, as consultorias reduzem as projeções tanto de produção industrial como do PIB deste ano. O mercado já trabalha com a previsão de crescimento de 3,5%, segundo o Boletim Focus do Banco Central. Há quem acredite que o PIB cresça 3%.
A Philips, uma das maiores fabricantes de eletroeletrônicos, já pisou no freio. A partir de amanhã, dá férias coletivas de 10 dias a 680 funcionários da linha de TVs da fábrica de Manaus. ¿Estamos antecipando parte das férias coletivas do fim do ano¿, diz o vice-presidente de Eletrônicos de Consumo da Philips do Brasil, José Fuentes.
Segundo ele, os estoques estão desregulados tanto no varejo como na indústria para alguns modelos de TVs. ¿Houve excesso de otimismo por causa da Copa.¿ No primeiro semestre, as vendas da empresa cresceram 45%, acima da média do mercado, que foi de 37,8%.
REVISÃO
Em julho, as vendas da indústria de TVs caíram 35% ante junho e a Philips sentiu o baque. Tanto é que a empresa espera repetir neste Natal o desempenho de 2005. Por causa da freada, o setor reviu de 11 milhões para 10 milhões de aparelhos a produção deste ano.
A Mabe Eletrodomésticos, dona das marcas GE e Dako, também vai dar férias aos empregados da produção de fogões, em Campinas (SP), que já estão com férias vencidas. Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, João Francisco Carlota, as férias começam no dia 28. ¿Calculamos que 160 trabalhadores têm férias vencidas.¿
Ele conta que, no início do mês, a companhia havia concedido férias coletivas de 10 dias para 1,5 mil trabalhadores da linha de produção de fogões. ¿Os depósitos estão cheios e as férias coletivas não reduziram os estoques.¿
Desde o dia 14, a Atlas, fabricante de fogões, deu férias coletivas de 15 dias aos cerca de 600 trabalhadores da fábrica de Pato Branco (PR), conta o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Pato Branco, Ari Martins. Procuradas pelo Estado, a Mabe e a Atlas não responderam as ligações.
Férias para enxugar estoques não é algo recente. Mais de 3 mil trabalhadores de Manaus tiveram férias coletivas nos últimos dois meses, diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Distrito Industrial do Amazonas, Valdemir Santana.