Título: Começa júri da maior chacina do Rio
Autor: Roberta Pennafort
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/08/2006, Metrópole, p. C1

Começou ontem o julgamento de um dos acusados da maior chacina do Estado do Rio, quando 29 pessoas foram assassinadas na Baixada Fluminense, em 31 de março de 2005. No primeiro dia de julgamento do soldado da Polícia Militar Carlos Jorge Carvalho, acusado de participação na chacina da Baixada Fluminense, parentes de vítimas ficaram lado a lado de familiares do réu. Apenas algumas cadeiras separaram as famílias no plenário do Tribunal do Júri de Nova Iguaçu. Primeiro dos cinco PMs acusados a ir a julgamento, Carvalho, que se declarou inocente, entrou em contradição ao contar o que fez no dia do crime. A previsão é de que a decisão do júri popular, formado por cinco mulheres e dois homens, saia somente amanhã.

A chacina ocorreu na noite de 31 de março do ano passado, nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados. Ontem, cerca de 80 familiares das vítimas lotaram a sala do Tribunal do Júri. Eles chegaram cedo ao fórum, levando faixas de protesto e vestindo camisetas com fotos e nomes dos mortos. Antes da sessão, depararam-se com cerca de 20 pessoas, entre vizinhos e parentes do soldado, com camisetas com a frase "Carlos, temos certeza de sua inocência".

Os grupos não se falaram, mas mães, irmãs e amigos dos mortos demonstraram indignação: "Fico revoltada. É uma afronta. Chegaram depois, querendo colocar faixas do lado das nossas", disse Rosilene Vasconcelos, de 31 anos, que perdeu o irmão Fábio, de 28 anos.

Pai do PM, o aposentado Almir de Freitas Carvalho, de 64 anos, que organizou a demonstração de apoio ao filho, com a nora, a dentista Lilia Ramalho Fontes, de 31, garantiu que o soldado é inocente. "Foi tudo forjado", disse o pai. "Se você for ver os retratos falados dos bandidos, não têm nada a ver com meu marido", continuou Lilia.

Ana Paula da Silva, de 29 anos, que teve um irmão e um primo assassinados - Francisco José da Silva, de 34, e Marcus Vinícius Sipriano de Andrade, de 15 - e se sentou no plenário a duas fileiras de Lilia, mostrou-se inconformada: "O sangue do meu irmão foi achado na jaqueta e no sapato dele. Como podem dizer que é inocente?"

O soldado, que trabalhava no 20º Batalhão da PM, negou a sua participação nos crimes e acusou um sargento reformado do batalhão (cujo nome não revelou) de incriminá-lo. Segundo o PM, o militar é pai de um rapaz que teria sido acusado de outra chacina - em 2001, em Belford Roxo, onde morava Carvalho.

O PM se contradisse, em relação a depoimentos anteriores, sobre suas atividades no dia do crime. Garantiu que só soube da chacina na manhã seguinte, quando o amigo Marcos Antônio Carneiro lhe telefonou contando o ocorrido. Carneiro foi quem lhe emprestara o Gol prata que, segundo o Ministério Público, foi usado na chacina. No carro, havia vestígios de sangue de vítimas, além de munição.

O soldado é acusado de 29 homicídios duplamente qualificados - cometido por motivo fútil (demonstração de força na Baixada Fluminense) e com recursos que impossibilitaram a defesa das vítimas -, uma tentativa de homicídio e formação de quadrilha. Respondem pelos mesmos crimes Marcus Siqueira Costa, José Augusto Moreira Felipe, Fabiano Gonçalves Lopes e Júlio César Amaral de Paula. Ainda não está definido se serão julgados juntos ou separadamente (o júri de Carvalho está sendo realizado primeiro a pedido de sua defesa). Os cabos Ivonei de Souza e Gilmar Simão foram pronunciados só por formação de quadrilha e aguardam julgamento em liberdade.

Hoje, no segundo dia do julgamento, o depoimento mais aguardado é de Cledivaldo Humberto da Silva, único sobrevivente do massacre. Segundo o MP, a pena do PM pode chegar a 500 anos. Mas o promotor Marcelo Muniz disse que é grande a possibilidade de o soldado ser condenado a menos de 20 para não ter direito a novo julgamento.