Título: Superávit comercial perde o fôlego
Autor: Adriana Fernandes, Patrícia Campos Mello
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/06/2006, Economia, p. B5

O dólar mais barato ao longo do ano e a aceleração do crescimento da economia brasileira intensificaram o aumento das importações e já começam a afetar de forma mais clara o desempenho da balança comercial, interrompendo a seqüência de recordes sucessivos. O superávit comercial caiu em maio 12,13% na comparação com o mesmo mês de 2005, fechando em US$ 3,028 bilhões.

Os números do comércio exterior ainda são bastante favoráveis, mas maio foi o segundo mês consecutivo em que o saldo ficou menor que no ano passado. A queda do superávit já tinha sido observada em abril. E pela primeira vez desde 2001, também o saldo acumulado - de US$ 15,46 bilhões até maio - ficou abaixo do verificado no mesmo período de 2005 (US$ 15,62 bilhões). O superávit acumulado em 12 meses, que chegou à marca recorde de US$ 45,79 bilhões em março, também entrou em trajetória decrescente, caindo para US$ 45,01 bilhões em abril e agora, em maio, para US$ 44,57 bilhões.

"Começamos a perceber um efeito muito claro da taxa de câmbio e do nível de atividade, que fizeram com que as importações retomassem um ritmo muito forte", avaliou o economista Sérgio Vale, da MB Associados. Segundo ele, esse movimento pode ser verificado principalmente no aumento das importações de bens de consumo, matérias-primas e insumos usados pela indústria nacional.

"Enquanto a classe alta tem aproveitado a queda do dólar para comprar produtos importados, como automóveis e eletroeletrônicos, a classe mais baixa consome vestuário, calçados e quinquilharias vindas do exterior", disse Vale. De outro lado, disse, as exportações estão perdendo fôlego.

Segundo José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), todos os sete principais produtos da pauta de manufaturados - automóveis, autopeças, motores, celulares, caminhões, aviões e laminados - tiveram redução na média diária exportada. "Fora os laminados, que tiveram queda de preço, todos os produtos recuaram por causa de perda de competitividade", disse Castro.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, as importações nos primeiros 5 meses do ano chegaram a U$ 27,85 bilhões, com alta de 22,1% em relação ao período janeiro-maio de 2005. No mesmo período, as exportações bateram em US$ 49,46 bilhões, um crescimento bem menor, de 13,8%.

As importações de automóveis cresceram 95,2% de janeiro a maio. As importações de todo o grupo de bens de consumo cresceram 36,8% no ano. As compras de máquinas e equipamentos para novos investimentos tiveram alta de 26,6% nos 5 primeiros meses.

Para o secretário de Comércio Exterior do ministério, Armando Meziat, não há razão para se preocupar com o crescimento das importações, que é positivo para a economia. "Já é esperado que o saldo de 2006 será menor do que o de 2005", afirmou. No ano passado, a balança teve superávit de US$ 44,8 bilhões. Neste ano, previu, o saldo deverá ser de US$ 40 bilhões.