Título: Números foram 'inflados'
Autor: Fabio Graner, Gustavo Freire
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/07/2006, Economia, p. B6

Os números apresentados ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para tentar mostrar que os investimentos no governo Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassaram os da gestão de Fernando Henrique não correspondem aos valores efetivamente realizados. Registros do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) indicam que, apesar de o governo contabilizar R$ 34,6 bilhões de investimentos da União entre 2003 e 2005, só R$ 26,9 bilhões foram executados e pagos.

Segundo os dados apresentados pelo Ministério da Fazenda, o investimento da União em 2005 teria sido de R$ 17,1 bilhões ou 0,88% do Produto Interno Bruto (PIB), que somado ao gasto de estatais federais daria 2,33% do PIB. Na comparação com FHC, usando essa metodologia, 2001 foi o ano de maior investimento, com 2,28% do PIB. Porém, como denunciou o Estado no início de 2006, esses números estão inflados por uma sistemática de contabilização que a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) passou a adotar há alguns anos - a "liquidação forçada". Pela lei, o investimento só poderia ser liquidado quando concluído. Mas a STN está liquidando todas as despesas empenhadas ao final do ano, igualando os conceitos e distorcendo as estatísticas.

"Os valores divulgados pela STN como investimento liquidado no ano estão errados em virtude de uma falha na sistemática de fechamento automático do Siafi", diz o economista José Roberto Afonso. Em estudo, Afonso mostra que o governo FHC inflou seus valores em R$ 4,1 bilhões entre 1999 e 2002 - distorção que na gestão Lula foi de R$ 7,7 bilhões em três anos.

O ápice da distorção ocorre em 2005, apresentado por Mantega como o pico de investimento dos últimos oito anos. Dos R$ 17,1 bilhões que o governo diz ter investido, R$ 11 bilhões se referem a obras e projetos que nem começaram no ano passado. Parte delas está sendo realizada e paga em 2006, mas o próprio Ministério do Planejamento reconhece que uma parcela será simplesmente anulada. Afonso demonstra que o investimento de 2005 da União é de apenas 0,60% do PIB - somado ao valor das estatais declarado pelo governo não passa de 2,05% do PIB. Em 2002, último de FHC, o investimento real da União atingiu 1,01% do PIB e, com as estatais, 2,41% do PIB.