Título: A posse de Alan García
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Fonte: O Estado de São Paulo, 02/08/2006, Notas Informações, p. A3
A lan García assumiu a presidência do Peru dando todas as mostras de que não repetirá os erros que cometeu em seu primeiro mandato (1985-1990). Naquela época, García presidiu um desgoverno populista, que resultou em hiperinflação, escassez de produtos básicos e moratória, no plano econômico, e corrupção e violência, no plano político.
Agora, ele promete um governo de "austeridade e modéstia". Prova de sua disposição de cumprir a promessa foi a maneira como montou o seu governo. Para o cargo de ministro da Economia e Finanças, escolheu um ex-diretor do Banco Central, conhecido por seu conservadorismo fiscal; e, dos 15 Ministérios, ocupou apenas 6 com membros de seu partido, o Apra, preenchendo os demais com políticos de partidos de centro-esquerda e técnicos de competência reconhecida.
Assim, Alan García deu todas as indicações de que garantirá a continuidade das conquistas econômicas conseguidas durante o governo de Alejandro Toledo. O ex-presidente foi um dos mais impopulares da história do Peru. No entanto, suas políticas deram ao país um período de grande prosperidade - crescimento do PIB em torno de 6%, inflação baixa, moeda estável, equilíbrio fiscal e dívida controlada. Caberá a García, agora, dar prosseguimento às políticas que permitiram o crescimento econômico, temperando-as com iniciativas que reduzam as profundas disparidades sociais que caracterizam o Peru. Ele deixou claro que não cairá na armadilha de ou crescer ou distribuir e, para não se atolar nessa falsa disjuntiva, pretende fortalecer o mercado interno e, ao mesmo tempo, estimular o setor exportador, aproximando-se do Mercosul e tentando revitalizar o Pacto Andino - o que não será fácil.
Não deixa de ser sintomático que, na posse de Alan García, assistida por nove presidentes de países da região, duas ausências tenham sido particularmente notadas. A mais chocante foi a do presidente Néstor Kirchner da Argentina. Segundo informa nosso correspondente em Buenos Aires, lá se atribuiu a ausência a um pedido feito a Kirchner pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Dado o grau de dependência financeira da Argentina em relação ao Tesouro venezuelano - o grande comprador dos títulos argentinos, que quase nenhuma liquidez têm no mercado internacional - e os serviços que Kirchner tem prestado a Chávez, aquela versão é bastante plausível.
Já a ausência de Hugo Chávez na posse de García era perfeitamente normal. O coronel-presidente da Venezuela interferiu descaradamente no processo eleitoral peruano, a favor do candidato populista Ollanta Humala, com quem pretendia - ao lado de seus aliados Fidel Castro e Evo Morales - fortalecer a frente antiamericana. A interferência nos assuntos internos peruanos abalou o relacionamento bilateral. Alan García e Hugo Chávez acabaram trocando insultos e o coronel anunciou que não manteria relacionamento com um governo chefiado pelo candidato aprista.
De certo não por coincidência, por ocasião da posse de Alan García, Hugo Chávez empreendia longa viagem a países do Leste Europeu e da Ásia, com passagem pelo Irã. Na Rússia, confirmou a compra de aviões, helicópteros e equipamentos militares, em valor superior a US$ 3 bilhões, que, somados às compras feitas na Espanha, de aviões de transporte e navios de guerra, modificarão o equilíbrio de forças na região. Dada sua retórica confrontacionista e beligerante, é de todo possível que a ida de Chávez ao mercado de armas provoque uma corrida armamentista nos países vizinhos. Nos outros países, em especial no Irã, Hugo Chávez fez "alianças estratégicas" declaradamente contra os EUA. Reiterou seu apoio ao programa nuclear iraniano - que, ao contrário das evidências acumuladas pela Agência Internacional de Energia Atômica, garante ser voltado apenas para fins pacíficos e declarou, na Universidade de Teerã, que, "se o império americano tiver êxito em consolidar seu domínio, não haverá futuro para a humanidade. Por isso, devemos salvar a humanidade e pôr fim ao império americano".
Com essa insana disposição, Hugo Chávez é um perigoso elemento de perturbação do equilíbrio regional, que precisa ser isolado. O que realça a importância da eleição de Alan García.