Título: Programa econômico do PT só terá 'generalidades'
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/08/2006, Nacional, p. A6
Divergências entre partidos aliados e até no próprio Executivo sobre o tamanho do ajuste fiscal num eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fizeram com que os coordenadores eliminassem do programa de governo o detalhamento sobre prioridades na economia. Com divulgação prevista para terça-feira, o programa de Lula contém apenas compromissos genéricos para o futuro e passa longe de controvérsias.
Boa parte da divergência entre os aliados da candidatura petista deriva do fato de as pesquisas exibirem um Lula com chances cada vez maiores de vencer já no primeiro turno. Isso assanhou o PC do B, por exemplo, que fala abertamente em um programa de governo mais à esquerda.
"Nós defendemos um redirecionamento na economia, mas essa polêmica não é abordada no documento", afirmou o presidente do PC do B, Renato Rabelo. "Frisamos muito que o ajuste fiscal não pode ser um fim em si mesmo. O problema, ainda não resolvido, é como ter o ajuste como meio para a queda mais acelerada das taxas de juros."
Para o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), "não existem divergências" em relação ao que fazer na economia num eventual segundo mandato. "Há uma visão consensual sobre a correção da política econômica", disse. No próprio governo, porém, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chegou a defender publicamente um ajuste fiscal menor do que a meta pregada pela área econômica no ano passado.
MAIS ENXUTO "O redirecionamento da economia foi feito neste quarto ano de governo para haver uma execução orçamentária mais rápida e linear", afirmou Berzoini, que é coordenador da campanha de Lula. Na avaliação dele, as propostas para um segundo mandato não precisam mesmo ter metas numéricas. "O programa será mais enxuto porque avaliamos que o povo já tem condições de julgar o governo pela obra realizada. Não é um documento de quem está na oposição", argumentou. "É um programa para o povo ler. Não é só para intelectuais."
Para o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, o futuro do PT será determinado pela natureza do segundo governo Lula. "Em 2007, o governo terá de inverter o binômio estabilidade e crescimento. Em primeiro lugar será preciso crescimento", afirmou.
Lula respondeu a parte desses anseios no último dia 4, quando jantou com 500 empresários, no Jockey Club.Ele ofereceu a continuidade econômica pura e simples num segundo mandato, enterrando as teses do PC do B e de setores do PT em favor de uma guinada. Ao defender mais do mesmo, Lula sentenciou: "Chega de idas e vindas." Na teoria, porém, seu programa prega, mais uma vez, um "novo modelo de desenvolvimento", sob a alegação de que, agora, a casa está arrumada.
Aliado de primeira hora, o presidente do PC do B disse que, se Lula for reeleito,essas questões terão de ser debatidas com mais profundidade. "É claro que um programa só nosso seria mais à esquerda, mas alguns pontos principais precisam estar contemplados para não haver problemas." Rabelo observou que o PC do B "pode até entender" a fixação de um superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB), desde que haja queda dos juros. "Se os juros caem, isso se reflete no câmbio, atualmente sobrevalorizado. Se o Lula se reeleger, essa polêmica vai voltar."
Apesar de alimentar essa expectativa, Rabelo admite, sem mencionar os demais aliados de Lula (PRB, PMDB, PL e PTB), que a maioria não se "entusiasma" com a idéia de construir "um programa comum".