Título: `Esse achado é uma janela privilegiada¿
Autor: Cristina Amorim
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/08/2006, Vida&, p. A27
O arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo, e sua equipe descobriram na semana passada um esqueleto completo de 800 anos em Iranduba, a 25 quilômetros de Manaus (AM). É um material inédito para os cientistas, que vai ajudá-los a detalhar o cotidiano de um dos povos que viveram na várzea dos Rios Amazonas e no Solimões a partir da pré-história. O sítio arqueológico, com 16 hectares, foi encontrado há mais de dez anos e, desde então, ajuda os arqueólogos a mudarem a percepção de que a ocupação humana na Amazônia foi esparsa ao longo de sua história.
Estamos acostumados com a idéia de serem encontradas ossadas antigas em locais áridos. Como esse esqueleto foi mantido por tanto tempo na floresta?
Existe uma idéia geral incorreta sobre sepultamentos humanos na Amazônia. A gente sempre imagina somente uma floresta onde chove muito, faz muito calor, os solos são muito ácidos e as condições de preservação do material orgânico, ruins. Mas existem contextos em que as condições de preservação são muito boas. Onde há bastante cerâmica misturada, jogada no solo pelas pessoas que viveram ali, forma-se uma capa protetora, às vezes com mais de um metro de espessura. É uma barreira física que protege o material orgânico abaixo.
Em que esse esqueleto é diferente dos outros?
Outros sepultamentos que encontramos estavam fragmentados. São chamados secundários: o corpo é enterrado, exumado, processado e enterrado de novo. É como se faz para passar o corpo pela boca de urnas funerárias. Isso faz com que alguns ossos se percam no processo. Sepultamentos secundários são informativos também. Mas ter um indivíduo inteiro, completo, em posição fletida, os ossos na posição anatômica, assegura um monte de informações interessantes.
Que tipo de informação?
O que eles comiam, qual era a qualidade de vida, se morreram muito cedo ou numa idade avançada, se eram robustos ou pequenininhos - que é um indicador de stress nutricional. Pela análise química dos ossos, por isótopos de carbono, a gente pode ver o que eles comiam, se a agricultura ou pesca tinham o papel mais importante. Esse achado é uma janela privilegiada. Ela abre para nós uma quantidade de dados à qual normalmente não temos acesso.
Por que trabalhar nesse sítio arqueológico?
Ele é excepcional por diversos motivos. Um deles é o fato de dar condições excepcionais de preservação de materiais orgânicos por condições específicas do solo. Tem muita coisa preservada lá. Muito osso, não só de gente mas também de bicho, resto de planta. É uma ¿cápsula¿ de informações sobre o passado.
Como a Amazônia foi ocupada pelos humanos?
Houve várias ocupações diferentes, feitas não só por um único grupo. E é de se esperar, como em qualquer lugar do mundo, que elas tenham exercido pressões e modificações ambientais diferentes no seu entorno e não tenham sido apenas objeto de pressões ambientais. Essa é nossa base teórica geral. Partimos dessa premissa, mas agora precisamos detalhá-la um pouco mais.
Como Iranduba entra na história?
O sítio foi ocupado quatro vezes no passado de forma sucessiva por grupos diferentes, entre 2.500 e 700 anos atrás. Cada ocupação interferiu na anterior, o que complica a situação para nós, arqueólogos. Por outro lado, as ocupações sucessivas nos permitem monitorar como ocorreu o processo de mudança, como interferiram no entorno. Toda a região amazônica é interessante para a arqueologia. Mas essa região é comparativamente rica a Santarém e Marajó, mas pouco trabalhada até agora.
Por quê?
Somos os únicos arqueólogos que trabalham todo o tempo no Amazonas. Não que os arqueólogos sejam preguiçosos, nada disso, mas trabalhar na Amazônia exige esforço, com investimento pessoal e de recursos, muito grande. Basicamente, quem financia a pesquisa naquela região é a Fapesp e a Petrobrás. Porque custa caro trabalhar na Amazônia. É preciso comprar passagem aérea, pagar deslocamento. Temos hoje 40 pessoas no campo escavando quatro sítios simultaneamente. Eles são muito grandes e só podem ser compreendidos a partir de uma estratégia em larga escala. Estamos num momento de investimento de tempo, com perguntas que a gente tem de responder, que demandam esse tipo de mobilização. Os resultados estão saindo por conta dessa mobilização.