Título: Para os EUA é a Ásia que importa
Autor: Alberto Tamer
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/08/2006, Economia, p. B4
Enquanto a imprensa brasileira publica as notícias mais absurdas - e verdadeiras! - do mundo, os Estados Unidos quase anunciam oficialmente o seu virar de costas para o mundo e se voltam para a Ásia. Diz um não categórico à OMC e a nós.
Aqui, o presidente que mais aumentou impostos, hoje batendo o recorde de 37,7%, anuncia que vai reduzi-los no próximo mandato; só que, no mesmo dia, o seríssimo secretário do Tesouro, Carlos Kawall, confirma que o maior desafio é a dívida interna, que já passa de US$ 1 trilhão "líquida", cerca de 50%, mas, na verdade, a dívida interna total é de 70% do PIB! E cresce não mês a mês, mas dia a dia. Como pagá-la reduzindo a arrecadação via corte da carga tributária? Como incentivar investimentos externos sem os benefícios fiscais que outros países oferecem?
De acordo com a Sobeet, eles caíram de US$ 23 bilhões, anualizados, no segundo semestre de 2005, para US$ 13,5 bilhões em julho. No mesmo dia, o ministro Furlan repete, na presença de Lula, sem medo de cair no descrédito e sob a perplexidade dos empresários presentes no Conselho de Desenvolvimento Econômico, que "está na hora de o Brasil olhar para a frente. Está na hora de sairmos dos alicerces". Será que o Pero Vaz de Caminha já não disse isso?
Ora, o que fizemos até agora nestes quase quatro anos? Vale até perguntar: onde estão os alicerces? Eu sempre defendi o ministro Furlan, um batalhador, mas acho que já está na hora de confessar que não deu. Ele defende o setor privado, mas os empresários, aqueles que produzem, estão cansados de reuniões inúteis e palavras vazias.
EUA PERTO DA ÁSIA
Mas a novidade é a aproximação dos EUA com a Ásia. Nesta sexta-feira, os 16 países asiáticos, desde a China até a Austrália, estiveram reunidos para formar um grande bloco comercial de US$ 10 trilhões. E adivinhem quem apareceu por lá? A sra. Susan Schwab! Sim, aquela mesma loira bonita, representante comercial dos EUA, que andou passeando por aqui. E sabem o que ela foi fazer lá? Assinar um acordo de expansão comercial e investimentos com 10 dos 16 países do Sudeste Asiático para facilitar o comércio com os EUA. Eles chamaram quase romanticamente o acordo de "Uma janela para a Ásia". O nome completo pode ser traduzido como "Acordo para Facilitar Comércio e Investimento" e a nova sigla que acaba de aparecer é Tifa, em inglês.
"O Tifa será a plataforma para intensificar nossas relações comerciais com os países da Ásia, que são o nosso quarto maior parceiro comercial",afirmou. Ela sabe que os EUA têm um superávit comercial com esses países, que são fornecedores da ainda relutante China, hoje em boa parte apenas montadora e exportadora de produtos para os EUA e o mundo, inclusive os que inundam o Brasil.
COMPRA? PODE VIR
O comércio entre os EUA e os países do Sudeste Asiático, no ano passado, foi de US$ 152 bilhões, 12% mais que em 2004. O acordo foi assinado, apesar das sanções contra a política de direitos humanos de Mianmá (ex-Birmânia).
E a China? Ela já assinou um acordo semelhante com os países asiáticos e espera encerrar as negociações este ano. A idéia é criar uma grande zona de livre-comércio com todos os países asiáticos em 4 anos, afirmou o vice-ministro de Comércio chinês, Yi Xiazhun. E os Estados Unidos, um país que também integra a zona asiática de livre-comércio, não irão ficar fora. O bloco dos asiáticos tem amplas divisões econômicas. Os mais desenvolvidos - Malásia, Indonésia, Cingapura, Brunei, Tailândia e Filipinas, de um lado, e os seus quatro novos membros, Camboja, os comunistas Vietnã e Laos e o governo militar Mianmá. Ao todo, são 560 milhões de habitantes. Mas todos têm um ponto em comum: comércio e crescimento. E os EUA querem ficar cada vez mais por dentro.
Afinal, esquerda ou não, nenhum dos governadores dos países comunistas abriu uma frente de ataque agressiva contra os EUA; ninguém acusou com palavrões de baixíssimo calão o seu presidente, como esse patético e hilariante, mas perigoso, generalíssimo Chávez, que tanto empolgou o nosso presidente, tão mal orientado em política externa. Podem ser comunistas, como Cuba, mas não são burros a ponto e brigar com quem representa quase 30% do PIB mundial.
E O BRASIL?
Após sair da Ásia, a sra. Schwab, levando na bolsa o acordo com os asiáticos, foi para Genebra, para mais uma "reunião", e voltou a afirmar ao correspondente do Estado, Jamil Chade, que os EUA não irão mudar em nada a sua proposta de "abertura" na OMC. É assunto liquidado. E, acrescentou, é muito provável mesmo que o Brasil e a Índia sejam excluídos do Sistema Geral de Preferências (SGP), que beneficia algumas importações americana de países menos desenvolvidos.
É ISSO, SIM
Um leitor perplexo com a nossa coluna do dia 20 (Todos são protecionistas. Até nós) pergunta se tenho certeza dos números a respeito do comércio Brasil-EUA e o peso dos produtos atingidos pela exclusão do Sistema Geral de Preferências. Veja no site www.desenvolvimento.gov br. Está tudo lá, oficial.
Resumindo e chocando ainda mais: o SGP prejudica exportações no valor de US$ 3,6 bilhões dos US$ 22,7 bilhões que o Brasil exporta para um país que importa US$ 2 trilhões. O que deveria surpreender o leitor é que exportamos tão pouco para um país que importa tanto. Como diria Shakespeare, "há algo de errado no reino de Brasília"