Título: Emendas eram cruzadas para camuflar fraudes
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/07/2006, Nacional, p. A6
Parlamentares flagrados no esquema dos sanguessugas faziam emendas para Estados onde não tinham domicílio eleitoral. Dessa forma, beneficiavam a Planam na venda de ambulâncias superfaturadas, mas procuravam disfarçar o direcionamento.
Levantamento realizado pelo Estado, com base na execução de emendas orçamentárias entre 2002 e 2005, demonstra que pelo menos cinco acusados de envolvimento com o esquema agiram dessa maneira. Todas as propostas foram feitas ao orçamento de 2004.
O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), membro da CPI dos Sanguessugas, disse ao Estado que essa manobra tinha como objetivo camuflar a irregularidade e garantir o empenho das emendas e o pagamento da propina.
Algumas das emendas dos deputados flagrados no esquema descrevem a ação como "estruturação de unidade de atenção especializada". Outras são mais diretas: "aquisição de unidade móvel de saúde". Gabeira afirmou que o nome genérico é proposital.
O ex-deputado Ronivon Santiago (PP-AC) era um dos mais ativos nessa manobra. De acordo com o depoimento de Luiz Antonio Vedoin à Polícia Federal, Ronivon "alugou" o mandato à Planam e recebia 10% de propinas pelas emendas apresentadas.
No orçamento de 2004 ele incluiu R$ 2,2 milhões em proposições para a área da saúde. Desse total, R$ 1,3 milhão foram destinados a compra de ambulâncias ou "estruturação de unidade de atenção especializada" em Estados como Pernambuco e Mato Grosso, que não são a base eleitoral do parlamentar.
Para Jaciara, em Mato Grosso, por exemplo, Ronivon fez uma emenda de R$ 300 mil. Nova Marilândia, no mesmo Estado, foi contemplada com R$ 400 mil, e Pontes e Lacerda, com R$ 300 mil. Para Pernambuco, as cidades de Flores, Timbaúba e Taparatama receberam R$ 100 mil cada uma. A reportagem não conseguiu localizar o ex-deputado.
Eleito graças a mais de 1 milhão de votos obtidos pelo deputado Enéas Carneiro (Prona-SP), o Professor Irapuã Teixeira, que atualmente é filiado ao PP, apresentou uma emenda no valor de R$ 500 mil para Jaciara (MT).
Teixeira, segundo Vedoin, recebeu R$ 22 mil em dinheiro em seu gabinete e cobrava 10% de propina para apresentar as emendas. Procurado pela reportagem, o deputado mandou dizer, pela assessoria de imprensa, que não iria se pronunciar sobre o assunto.
Outro deputado também eleito pelo Prona em São Paulo, mas que mudou para o PP, é Vanderlei de Assis. Em 2004 ele incluiu uma proposta de R$ 500 mil para a Prefeitura de Santa Rita do Trivelato (MT). Outros R$ 500 mil foram para Macaé (RJ).
À Polícia Federal, Vedoin disse que Vanderlei de Assis pegou R$ 40 mil em espécie e mais R$ 20 mil teriam sido depositados na conta de assessores. Sua assessoria informou que não conseguiu contatá-lo.
O deputado Almir Moura (PL-RJ) disponibilizou R$ 100 mil para "estruturação da rede de serviço de atenção básica de saúde" de São Paulo. Desse valor, R$ 80 mil foram pagos. O parlamentar foi acusado por Vedoin de receber R$ 20 mil em dinheiro. Sua assessoria informou que tentaria localizá-lo, mas não deu resposta.
Eleito pelo Rio de Janeiro, Dr. Heleno (PP-RJ) apresentou uma emenda de R$ 50 mil para a estruturação do hospital memorial Rubens Dutra 2, em Campina Grande (PB).
Nos grampos, Darci Vedoin liga para o gabinete do deputado. Marquinhos (possivelmente Marcos Antonio Lopes, preso na operação) diz que apresentou Darci e Luiz Antonio Vedoin ao deputado. A assessoria do parlamentar informou que a emenda para Campina Grande se deu porque o deputado é natural dessa cidade.