Título: Lula ironiza idade de Itamar, que o chama de leviano
Autor: Tânia Monteiro e Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/07/2006, Nacional, p. A12
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou os ataques desfechados pelo ex-presidente Itamar Franco, que disse ter optado "pela ética" ao apoiar Geraldo Alckmin (PSDB) para o Palácio do Planalto. "Quando as pessoas chegam acima de 75 anos, elas têm de ter, no mínimo, liberdade de fazer suas opções e não sou eu que vou fazer julgamento. Só desejo ao presidente Itamar acerto nas suas decisões", declarou Lula, em Lima, onde assistiu à posse do novo presidente do Peru, Alan Garcia.
Em Belo Horizonte, procurado pelo Estado, Itamar, de 76 anos, rebateu a ironia. "Como ex-presidente, não gostaria de bater boca com o atual ocupante do Planalto. Melhor, mais educado, seria um debate público, mesmo porque Sua Excelência vive na roda dos escarnecedores e de uns tempos para cá suas palavras são irônicas, vazias, escorregadias, arrogantes e de um ufanismo leviano. É muito bom poder chegar à minha idade desfrutando de um conceito de ética e moral no trato da coisa pública, que mantenho desde a minha juventude."
Ao responder a Itamar, Lula novamente recorreu a uma de suas metáforas futebolísticas: "O Brasil é um país livre, em que 180 milhões de brasileiros podem torcer para o Corinthians ou o Palmeiras, para o Flamengo ou para o Vasco, sem que isso seja ofensivo a qualquer pessoa." Mas a primeira resposta de Itamar preocupou o governo, que não pretendia estender o confronto com o ex-presidente.
PRECONCEITO
Bem a seu estilo guerreiro, Itamar amplificou ontem mesmo a resposta, rebatendo o chiste feito por Lula. "É conhecido de todo o povo brasileiro o preconceito de Sua Excelência com idades mais avançadas, haja vista o que ele fez e faz com os aposentados brasileiros", replicou. Disse que Lula "vive querendo comparar o governo dele com os outros" e desafiou: "Aceito comparar meu governo com o dele, principalmente nos planos moral e do desenvolvimento."
Mais cedo, sem combinar com Lula e na tentativa de amenizar o confronto, o governador do Acre, Jorge Viana (PT), conciliou: "Lamento o que houve, porque o ex-presidente Itamar tem mais afinidade com nosso projeto de Brasil do que com o projeto de Alckmin", declarou. E propôs, a seguir: "A gente tem de estar sempre de portas abertas para ele."
Irritadíssimo com a ironia de Lula, Itamar carregou nas tintas: "Não quero ser mal-educado como ele, mas em 2002, já no final da campanha, num palanque em São Bernardo do Campo, ele agarrou na minha mão, chorando, e disse que não esquecia os amigos. Naquele momento, ele não perguntou quantos anos eu tinha", disse.
Lula não quis admitir que o confronto com Itamar possa causar perdas eleitorais. "Ele não tinha por que me apoiar, se não o procurei", comentou. "Mas ainda temos dois meses de campanha", resignou-se. "Vamos ver e levar o barco à frente."