Título: Brasil quer liderar reação a mudança no FMI
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/09/2006, Economia, p. B4

O Brasil planeja formar um bloco de países emergentes na reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) para votar contra um projeto de reforma da entidade que dará mais poder de voto à China, Coréia, Turquia e México. O encontro será realizado em Cingapura nos dias 19 e 20 deste mês e, além de tentar impedir que a mudança seja aprovada, o Brasil começará a debater critérios para futuras alterações no funcionamento do Fundo.

As mudanças que serão discutidas afetarão as cotas de cada país no FMI, o que acaba determinando o acesso de países a financiamento e poder de voto. No FMI, o discurso é de que, sem essa reforma, a entidade de mais de 60 anos pode tornar-se ultrapassada e dominada por americanos, japoneses e europeus. "Se o Fundo ainda quer ser relevante para seus membros, sua estrutura de governo precisa ser adaptada às novas realidades", afirmou o diretor-gerente do FMI, Rodrigo de Rato, que planeja para 2008 reformas mais profundas.

Fontes em Brasília apontam que o objetivo do governo brasileiro, porém, não é minar os países emergentes escolhidos para serem graduados pelo FMI. O problema é que essas economias estariam ganhando mais espaço à custa da participação de outros países emergentes, e não dos países desenvolvidos. A queixa brasileira é de que economias européias como Holanda, Bélgica e Suíça continuarão com a mesma influência nas decisões do Fundo.

Não por acaso, a Europa já disse que apoiará a resolução, proposta pelo próprio Rato. No governo brasileiro, a percepção é de que a direção da reforma prejudicará o País no médio prazo, já que diluirá ainda mais o poder do Brasil de influenciar eventuais decisões do FMI.

O Brasil espera contar em Cingapura com o apoio de Argentina, Chile e outros países de economia média para evitar a aprovação da resolução. Já os mexicanos, que serão beneficiados pela proposta, estão conscientes de que o Brasil fará campanha contra a resolução.

"Sabemos que a idéia não é bem recebida pelo governo brasileiro", afirmou um representante do Banco Central mexicano. "Vamos tentar conversar em Cingapura sobre como resolver isso." Já o presidente do Banco Central chinês, Zhou Ziaochuan, evitou entrar em polêmica: "As posições dos países ainda não estão definidas".

Além de votar contra a proposta, o Brasil começará a negociar novos critérios para as futuras mudança nas cotas. Segundo Brasília, os critérios atuais favorecem as economias menores na Europa.

Já os europeus irão ao encontro do FMI aliados a vários governos asiáticos, entre eles China e Coréia. A União Européia acertou com a Ásia que não se oporá à resolução, contanto que isso não queira dizer que perderão espaço no FMI.

Hoje o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deixa a Suíça em direção à Ásia. Meirelles participou da reunião bimensal do Banco de Compensações Internacionais (BIS) na Basiléia.