Título: Diplomata prega realismo entre países
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/07/2006, Internacional, p. A21

Diplomata de carreira, Arturo Sarukhán Casamitjana foi chefe da assessoria de planejamento de políticas sob a gestão de Jorge Castañeda, o primeiro chanceler do presidente Vicente Fox. Serviu depois como cônsul-geral do México em Nova York até janeiro, quando, para contrariedade do atual chanceler, Luiz Ernesto Derbéz, renunciou para trabalhar na campanha presidencial de Felipe Calderón - considerado, na época, um candidato sem chance.

Na quinta-feira, depois de uma reunião na qual os assessores próximos ajudaram o próximo líder mexicano a preparar seu primeiro discurso ao país, após o anúncio oficial de que vencera as eleições, Sarukhán falou ao Estado sobre os rumos da diplomacia mexicana no próximo governo e pregou realismo nas "complicadas" relações entre Brasil e México.

Segundo Sarukhán, haverá, sob o presidente Calderón, ajustes na política exterior mexicana, com um papel primordial para a América Latina e o Caribe. Há três grandes movimentos de transformação que afetarão a posição do México no mundo e sua política, disse Sarukhán. Primeiro, o efeito que terá na agenda diplomática mexicana o debate em curso nos EUA sobre sua política externa, sua política de segurança nacional e a relação desta com as questões fronteiriças. Segundo, o deslocamento geopolítico em direção à Ásia e ao Pacífico. O terceiro é a América Latina.

"Acima de tudo, precisamos ver como responderemos a uma pergunta crucial, ou seja, como faremos para que os cidadãos dos países da região acreditem nos méritos da democracia, dos sistemas plurais e tolerantes de livre mercado e de economias competitivas, inseridas na globalização e capazes de produzir benefícios concretos para todos, sem deixar ninguém para trás", disse o ex-chanceler.

Ele frisou que ao México interessa recuperar seu espaço de interlocutor e a presença de peso que perdeu na região nesses últimos anos. Nesse sentido, trata-se de retomar o diálogo com países como Brasil, Chile e outros no Cone Sul.

"Precisamos tratar da sempre complicada e às vezes conflitante relação entre o Brasil e o México, na qual se insere de vez em quando o argumento artificial de que o México é parte da América do Norte e, portanto, não tem nenhum papel ou peso no resto do continente", acrescentou. para Sarukhán, é preciso romper velhos tabus, como o de que o México e o Brasil são sócios naturais.

"Somos países com pesos específicos - econômico, geopolítico, diplomático. Certamente, em alguns assuntos temos pontos de vistas convergentes. Mas é importante reconhecer que somos competidores naturais e às vezes temos agendas muito contrastantes."